Fotografia da minha autoria

«As memórias duram uma vida inteira»

O papel de parede cobre-me o peito. Há molduras desalinhadas. Intemporais. Com muita vida dentro. Se parar para as observar, sinto o leve desenrolar de uma fita de cinema, revelando-me a história que estes últimos dez anos têm contado: com saudade, orgulho e muito amor. Um álbum de memórias não é suficiente. E temo que algumas fiquem submersas, mas sei que resistirão sempre à passagem do tempo. Porque nunca nos esquecemos do que nos faz sentir em casa.

Embora seja tentador elencar uma série de recordações, não deixa de ser uma viagem inglória, uma vez que há sempre algo a escapar-nos. E isso não significa que seja menos especial. A nossa mente é que tem uma forma muito própria de funcionar. Portanto, longe de ignorar todas as conversas que mantive, todas as surpresas e desafios que recebi e abracei, há três memórias marcantes que preciso de destacar, até porque acompanham a minha travessia blogosférica e correspondem, respetivamente, ao começo, à transição e à atualidade desta aventura.

O primeiro comentário/seguidor: O início desta jornada pode ser bastante solitário. Porque acabamos de chegar a esta plataforma online e porque demora o seu tempo até cativarmos a nossa comunidade. No entanto, esta falta de exposição não nos pode demover, sobretudo, por ser natural. É um processo com várias etapas, que vamos conquistando com empenho. E há um dia em que o nosso coração acelera: quando recebemos o primeiro comentário. Já não me recordo quem foi o autor do meu, mas ser-lhe-ei eternamente grata pelo retorno. Pode parecer mínimo - insignificante, até - para quem está de fora, mas é um gesto extremamente importante - e emotivo -, pois transmite-nos uma motivação extra, ao mesmo tempo que nos mostra que há sempre alguém atento. Perceber que há pessoas predispostas a ler o que escrevemos, a dedicar um pouco do seu tempo a comentar e a seguir o nosso trabalho é mesmo indescritível. E é uma imagem que me acompanhará até ao fim.

Mudar de blogue: A prova maior de que é a maneira como tratamos os outros que os faz ficar ou regressar senti-a quando, aos poucos, comecei a despedir-me do Parte do que sou e transportei a bagagem para As gavetas da minha casa encantada. Tenho noção de que, na reta final do meu primeiro blogue, fui mais negligente, limitando-me a publicar os meus textos sem fomentar tanto a parte da interação, porque não soube gerir esta vertente com o meu terceiro ano de curso. Aliada a este pouco cuidado, foi crescendo a vontade de investir num projeto mais amplo. Porém, não fazia sentido construí-lo numa casa com a qual já não me identificava. Quando anunciei a mudança, não estava certa de que alguém estivesse interessado em acompanhar-me, sobretudo, porque não tinha estimado bem a anterior, nem tinha uma linha editorial definida. Mas surpreendi-me! Assim que verifiquei que não estava sozinha, fui envolvida no aconchego de não começar a cem porcento do zero, atendendo a que tinha pessoas dispostas a serem uma rede de apoio. Isso não só me deixou de coração a transbordar, como também me deu mais confiança para avançar. É por isso que me sinto privilegiada.

Storyteller Dice: É uma iniciativa simples, recente, mas que me entusiasmou no exato momento em que decidi tirá-la do papel. E foi extraordinário perceber que houve logo quem quisesse participar. Não me importa - e não entendam isto com um significado depreciativo - se somos muitos ou poucos [ainda que mais pessoas signifiquem mais histórias inspiradoras]. Porque o que me move é constatar que estamos a criar um grupo com ideias, que não tem medo de usar as palavras e que se desafia na abordagem dos temas mensais. Embarcarem nesta aventura comigo, reservando um espaço no vosso blogue/instagram para o efeito, será sempre uma das memórias que mais me acalentará o coração.

Reduzir uma década a três lembranças seria impensável, mas são três pegadas que me permitem regressar ao passado, perceber de onde vim e para onde estou a ir. E também marcam o meu presente, atribuindo-me motivos sólidos para continuar esta caminhada tão especial, sempre com a certeza de que há muito mais guardado no lado esquerdo do peito.

[Reflexão sugerida pela Ana Ribeiro - EscreViver]