Sibélia Zanon Um dia eu pensei que o deserto era um horizonte largo e monocromático. Mas.. Passageira que sou, Descobri que há muitos desertos morando num só. Dunas lúdicas, Areia plana, Montanhas escavadas pelo vento, Cascalho fino, Pedrisco cortante. O mais surpreendente é que cada um destes desertos é cenário, É transformação. Se esquentar, as cobras emergem das profundezas dos seus pés e Se chover, a aridez brota flor. Minúsculas e amarelas em ramas desajeitadas. Servas do encanto, Petiscos em profusão de camelos. Um passeio é diferente de uma caminhada. Se o espírito estiver nutrido, Os sentidos permitirão o passeio. Nas fronteiras que dividem desertos, chocam-se contrastes. Serpente de incoerência pode nascer da alucinação febril. Grãos minúsculos de areia podem invadir os poros, os olhos, os sentidos. Mas, cada novo poente traz o inverno. E com ele, a revelação: O deserto tem cheiro, Que não se mede em toneladas de areia. Parceiras de estrelas, Minúsculas flores roxas Anunciam as mil e uma noites. Música berbere ao redor da fogueira, Tambor ancestral, Vozes que inventam a melancolia do que nunca se viu. Mas, cuidado com o whisky berbere. Se, por distração, você beber muito dele, poderá encontrar o silêncio da noite. Isso pode não ser ruim, mas pode ser difícil. O silêncio impõe devoção, E você pode ter perdido o seu altar. Ainda assim, É na solidão, É na aridez, É na dor, Que a estrela é cadente. Faça o seu pedido. E quando, por um mistério dos meteoritos, o silêncio de fora tocar o silêncio de dentro, Seus olhos se abrirão para a beleza. E, dentro, vai haver oração. Para que tudo o que é seu, eu, meu, teu Vibre na mesma sintonia. Sinfonia. Meu amor.