Fotografia da minha autoria

«Se eu soubesse como era / sentir-me segura»

A fenda no meu peito

Quebrou tudo o que conhecia

Quebrou o chão seguro

De uma família amparada

Sustentada em amor

E a perda que abraçamos de seguida

Cegou toda a felicidade

Que dentro de quatro paredes

Se repetia, se repartia

Há luz do lado de fora da janela

Com que audácia

Quando é de trevas que se reveste

Este quarto, meu interior

Sem qualquer manobra de equilíbrio

Pareceu-me que o destino

Brincou com a nossa dor

Mas como é que o mundo

Ousa continuar a girar

Se em nós só resta dormência

Ficou o vazio

O sofrimento

E a casa desfeita

Ficou o teu silêncio

E a minha raiva aos gritos

Ficaram os teus olhos fechados

E eu com uma ferida aberta

É neste luto que ainda persisto

Na ausência que a tua vida se tornou

Falta-me o abraço, o teu regaço

Um pedaço de abrigo

Resignei-me ao abandono

Pouco intencional

Mas alimentei a culpa

Da tua perda

No choro que ainda te reservo

À noite, em plena escuridão

Faço as pazes com o passado

Sempre a medo

Mas esta fenda nunca chegará a fechar