Fotografia da minha autoria

«A palma da mão nua/entretinha a casca limpa/do desejo adoecendo ao sol»

Avisos de Conteúdo: Referência a Morte

As saudades de ler poesia eram evidentes. Por qualquer alinhar de astros que não sei explicar, o Alma Lusitana ergueu uma ponte para este género, este mês, e, assim, fui descobrir a portuense Andreia C. Faria.

COMPILAR MUNDOS

Alegria Para o Fim do Mundo (curiosamente, o mote para a Feira do Livro do Porto) compila os anteriores livros de poesia da autora e leva-nos numa viagem muito interessante, que transita entre vários estados de alma e memórias. Com um tom intimista e desarmante, podemos seguir a ordem das páginas ou, então, criar a nossa sequência de leitura. Independentemente do método escolhido, espera-nos um caminho melancólico e belo.

«Se pela boca começasse

a alma a abrir-se e por tal paisagem

divisasse eu primeiro

a oclusão do céu deixando

intacta na terra

a geração dos vivos

poderia (e tu pela raiz)

salvar-me antes mesmo

de aprender a ler»

Optei por abraçar a ordem prévia dos poemas e sinto que, por isso mesmo, assisti a um crescimento quer ao nível da escrita, quer ao nível da abordagem dos temas. Deambulando pela infância e pela fase adulta, existe um jogo de sombras nas palavras. Há planos dicotómicos de felicidade e de angústia. Há sedução, medos, crenças e desejo. E há, ainda, uma voz que se vai tornando menos metafórica, como se se fosse libertando do pudor de se mostrar vulnerável e se fosse tornando mais confiante para partilhar vivências e inseguranças.

«Para que eu não temesse a respiração das coisas nocturnas

minha mãe lançava a corda ao fundo do poço

e agitava a escuridão»

Flúor parece-me o começo, o deslumbramento pelo que nos rodeia; a perceção do mundo e a construção da nossa jornada, ora inocente e frágil, ora cética e provocante, mantendo figuras de referência, abrindo portas ao passado. Um Pouco Acima do Lugar Onde Melhor se Escuta o Mundo apresentou-se como um livro mais maduro e contrastante, porque explora situações distintas e a própria linguagem é menos filtrada. Embora não deixe de contemplar alguma impaciência e urgência, existe uma certa calma a equilibrar a mensagem. Tão Bela Como Qualquer Rapaz é mais visceral, com uma consciência audível acerca do envelhecimento. Além disso, é uma viagem de autodescoberta. As Ervas Altas e os Pulsos é sobre finitude. É sobre o fim do percurso e a oportunidade de descansar. É a noção de morte que permite ajustar a perplexidade e apenas viver.

«Podemos pensar-nos em paz - a mesma

palidez é a de um pêssego e a do desespero

Podemos pensar-nos sozinhos e sonoros, únicos

sobreviventes de todo o barulho,

de tanta geração bravia»

Alegria Para o Fim do Mundo é profundo, com retalhos que se colam à nossa pele, visual e irónico, e convida-nos a regressar aos seus versos, para descobrirmos de quantas camadas são feitas as suas (entre)linhas.

🎧 Música para acompanhar: Alegria, Francesca Gagnon

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