Meu papel é fazer o texto de Duras, com todas as suas peculiaridades, surgir como tal diante do leitor brasileiro, o que inclui, às vezes, a aceitação de certo estranhamento.

Bruno Pernambuco

Adriana Lisboa é romancista, poeta e tradutora, autora de obras como Sinfonia em Branco e O Vivo.

Em 2022, traduziu o roteiro do filme Hiroshima meu Amor, escrito por Marguerite Duras, em edição publicada pela Relicário Edições. A autora, em conversa com a Fina, comenta sobre a adaptação do texto que mescla os meios da página e da tela, e fala sobre sua experiência no trabalho de tradução.

, FINA: O que, do seu trabalho como escritora, você sente que trouxe para a tradução de Hiroshima meu Amor? E teve algo que você precisou deixar de lado?

Adriana: Procurei respeitar o que vem me norteando como tradutora: que a escritora atrás da tradução seja discreta, não impondo ao texto original nem marcas inoportunas do meu estilo pessoal, nem fazendo eventuais aclimatações, transposições de sentido ou tradução de uma espécie de “essência” do texto. Meu papel é fazer o texto de Duras, com todas as suas peculiaridades, surgir como tal diante do leitor brasileiro, o que inclui, às vezes, a aceitação de certo estranhamento. Porque eu e ela somos autoras distintas, a despeito da imensa admiração que tenho por seu trabalho, e naturalmente eu teria encontrado outras soluções para os mesmos problemas em alguns casos – mas não se trata de mim, trata-se de Marguerite Duras. 

F: Lidar com o texto de alguém que refletiu, e escreveu tanto, sobre o processo da escrita quanto fez a Marguerite Duras afetou, de algum modo, o seu processo de tradução?

A: Eu diria que o empenho na fidelidade ao texto é o mesmo que eu teria diante de qualquer outra autora ou autor. Mas é claro que com uma autora como Marguerite Duras sabemos que as palavras não caíram ali na página de modo inconsequente, que tudo tem sua razão de ser e sua função, então o cuidado talvez tenha que ser redobrado, porque raramente “tanto faz” quando se trata de Duras.

F: Adaptações anteriores do texto de Hiroshima tiveram algum efeito na sua própria tradução? Você diria que já tinha uma relação com o texto, antes de começar esse processo?

A: O próprio filme de Alain Resnais teve bastante efeito. Traduzi o livro pensando em Emmanuelle Riva e Eiji Okada nos papéis da francesa e do japonês, bem como nas cenas do filme, e acho que esse elemento visual foi bastante interessante para o processo. Mas não conheço outras traduções do roteiro, então a única companhia além do texto original foi mesmo a do filme.

F: Você enxerga o texto da obra, pela sua forma, de uma forma diferente de outros textos em poesia ou em prosa- seus, ou de outras traduções?

A: O fato de ser um roteiro de cinema, com suas peculiaridades, informa certas opções a serem feitas na hora da tradução, bem como as marcas dos diálogos, que às vezes podem ser coloquiais e, noutras vezes, soar quase artificiais. Tudo isso são características do texto que não podem ser alteradas. As repetições, as reiterações, mesmo os aparentes excessos são traços fundamentais dessa obra em especial, para a qual o tempo conta muito, já que se trata de cinema. Acabo de traduzir o romance Moderato Cantabile, de Duras (o próximo livro da coleção da Relicário), e, embora seja também um texto calcado nos diálogos e com as mesmas marcas estilísticas que nos acostumamos a encontrar na autora, o fato de ser um romance oferece elementos narrativos de outra ordem, o tempo é outro.

F: Por onde você diria que “começou” a sua tradução de Hiroshima?

A: Comecei a tradução revendo o filme. Foi essencial. Essa ambientação visual me ajudou muito.