Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Segundo filme que vi com áudio original e sem legendas, animado que estava pelo fato de ter conseguido acompanhar bem Mission Impossible: Ghost Protocol. Fui ver por um motivo: David Fincher. Não vi o filme original nem li o livro. No meio de tanta literatura, tramas policiais modernas não me atraem, e o sucesso estrondoso da trilogia Millennium me fez manter distância dos livros. Ver Hollywood fazer sua versão de um filme dois anos depois me soa muito mal, mas me intrigou o fato de que era David Fincher, um diretor com uma assinatura de qualidade, o responsável por Seven, Clube da Luta e Zodíaco. Ele deveria mesmo ter algo a dizer com este filme.
O longa conta a história do jornalista investigativo Mikael Blomkvist, que tentava provar um esquema de corrupção envolvendo um milionário, mas que acabou sendo considerado culpado por difamação. Precisando de dinheiro (e na esperança de conseguir provar que estava certo), ele aceita o convite de outro milionário, o industriário Henrik Vanger, para, fingindo que escreve a sua biografia, investigue o sumiço de sua sobrinha, Harriet, ocorrido há mais de quarenta anos.
De maneira paralela à vida do jornalista vamos acompanhando a hacker punk Lisbeth, numa interpretação que levou uma Rooney Mara irreconhecível a ser indicada ao Oscar. Misteriosa, cheia de traumas e confusões e muito, muito inteligente, ela sofre nas mãos de um agente de seguro social ou algo assim e a forma como ela dá a volta por cima é uma das cenas mais espetaculares do filme. A vida dos dois acaba se cruzando e ela começa a ajudá-lo nas investigações e se inicialmente a ideia de tentar esclarecer um sumiço tão antigo parece absurda, já que teoricamente tudo que poderia fornecer alguma pista já foi visto ou desapareceu, o tino investigativo de Blomkvist e a habilidade e inteligência de Lisbeth levam-nos a ir descobrindo segredos de família cada vez mais perigosos.
E que família estranha têm os Vanger!
O filme é muito bonito visualmente e percebe-se os cuidados com todos os detalhes, desde a composição do figurino dos personagens até cada cenário (a casa onde fica hospedado Blomkvist, por exemplo, é espetacular, bem como a mansão do irmão de Henrik Vanger, brincando com o que se pode e o que não se pode mostrar). Não é à toa, portanto, que o filme foi indicado a quatro Oscar técnicos: Edição, Fotografia, Edição de Som e Mixagem de Som.
O roteiro é muito bem trabalhado (acredito que o material original, o livro, seja mesmo muito bom) e tem reviravoltas e segredos revelados nos momentos adequados e importante: as motivações de cada personagem não caem do céu, você consegue acompanhá-las na história. Ressalto que é um filme “pesado”: há muitas cenas de sexo, há violência e há os dois juntos, numa cena dolorosa. Rooney Mara tem uma atuação espetacular e mostra que não tem medo de se expor. Se lembrarmos que em vários casos o Oscar foi entregue a mulheres que atuaram bem e, dentre outras coisas, ficar nuas diante das câmeras (Hilary Swank em Boys don’t cry, Halle Berry em Monster’s Ball [em relação a ela retiro o “atuaram bem”], Kate Winslet em The Reader, Natalie Portman em Black Swan), podemos começar a pensar que ela tem alguma chance.
Eu achava que a trilogia Millennium (Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo do ar) contava uma só história, mas vendo o filme (e pesquisando um pouco depois) vi que o caso do sumiço de Harriet Vanger se resolve ali mesmo, no primeiro livro (o que contribui para que o filme não seja uma experiência frustrante). Cada livro seguinte é um “novo caso” a ser resolvido pelos dois protagonistas.
Não posso dizer que Fincher precisava mesmo contar essa história, para isso preciso ver o filme sueco primeiro. Mas quero assistir ao segundo filme, disso não tenho dúvida.
Avaliação: 4 estrelas de 5
