Foto “Lusan”, copiada do Devianart.com (www.deviantart.com)

Descendo a estrada que separa Bento Gonçalves de Santa Terezinha, na Serra Gaúcha, existe uma placa: “ACREDITE NA SINALIZAÇÃO”.

Eu a acho comovente. Uma súplica genuína do órgão que gerencia as estradas, um pedido de fé para os motoristas. “Você precisa acreditar, queremos que a sua vida seja mantida. Sério, estamos falando sério, gastamos uma preciosa placa para te avisar da nossa preocupação com o seu problema de fé”.

E as pessoas que não acreditam na sinalização? Existem pessoas que duvidam que a terceira faixa se aproxima, que dão risada do aviso de que é proibido ultrapassar, que não acreditam que uma curva perigosa se esconde no caminho? Se a placa foi necessária, a consequência lógica é concluir que existem pessoas duvidosas da sinalização.

Penso. E se não acreditarmos? Imaginar que as placas são mentirosas é imaginar um mundo sem regras, sem sinalizações, sem receitas. Talvez as placas realmente estejam mentindo. Neste caso, fascinante pensar qual é o mundo que as placas se esforçam tanto para que não entremos. Estaríamos escapando da arbitrariedade e da ilogicidade deste mundo cheio de placas a nos guiar.
Soa interessante pensar que vivemos em um mundo de caminhos pré-determinados, onde devemos sempre seguir os outros, nunca pensar em lugares alternativos, visões diferentes. Seguir a placa é estar no mesmo caminho da multidão. Contudo, desobedecer as determinações é arriscar no imponderável.

Milhões de vezes mais cômodo seguir os outros. Não acreditar nas placas implica em pensar por si só, implica em escapar do padrão. Toda vez que se deixa a placa mandar na vida, uma possibilidade do desconhecido deixa de existir. E, por serem arbitrárias, as placas condicionam pensamentos e criam uma falsa segurança: no meio do nevoeiro, cercado pelo mundo esmaecido, vemos a tranquilizadora placa dizendo que não existe volta possível, que é necessário se enfurnar mais e mais no nevoeiro… e acreditamos. Por que precisamos acreditar na sinalização. Afinal, quem não acredita na sinalização, acredita naquele pequeno impossível que mora onde as placas não entram. E isto a placa não pode permitir.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo