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Abr20

Maria do Rosário Pedreira

Por acaso, não ando a ler um livro em português, mas o pequeno romance de um autor nascido no País Basco, de ascendência galega, que escreve em castelhano e mora na Catalunha (que mistura explosiva). O livro, Ama, de José Ignacio Carnero (assim se chama o «senhor Espanha»), foi-me recomendado pela minha autora Marta Orriols e, embora não tão «purgante» como Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Villas, tem bastantes ressonâncias desse romance. «Ama» é a palavra mãe em euskera, mas é também a terceira pessoa do verbo «amar» em castelhano e em português, e este é um livro escrito com muito amor para fazer o luto de uma mãe. Olha para trás, para tudo o que não se fez e se podia ter feito, contando a vida de uma mulher que não teve muita sorte, mas até ao fim teve sempre uma grande dignidade: foi criada, migrante, pobre, doente, e sacrificou-se para dar tudo ao seu único filho, que hoje acha que não retribuiu como devia, mesmo que tenha passado com ela os últimos dias, os mais difíceis de todos, e lhe tenha dedicado esta peça literária. É, no fundo, um bonito testemunho sobre a orfandade e, ao mesmo tempo, um bom retrato da Espanha contemporânea.

Hoje, porque Ama será difícil de encontrar em Portugal, recomendo O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, com tradução de Nuno Camarneiro.