O homem das Cavernas | Jørn Lier Horst

A escrita de Horst tem um timbre característico ao qual o leitor responde como quem encontra a sua zona de conforto. Gente comum atravessa as páginas dos seus livros, gente sem história, por vezes esquecidos ainda em vida e, no entanto, gente que acaba por desempenhar um papel nas nossas vidas.

O tema deste Homem das Cavernas é a solidão e o desamparo na velhice. Pode alguém que viveu uma vida anónima perder a sua identidade e transformar-se num homem das cavernas? Esse é o desafio que se coloca ao detetive Histing, porque ninguém desaparece sem deixar vestígios.

Line, a sua filha, jornalista de profissão, inicia uma investigação sobre um vizinho que foi descoberto morto em sua casa ao fim de alguns meses. A televisão ainda ligada no canal a que assistia. O que parecia ser um caso de abandono e solidão, transforma-se em algo mais.

Line e Histing acabam por perseguir a mesma história, a primeira pelo interesse jornalístico do tema e o segundo pela via policial. A investigação cruza-se com um americano que se deslocou à Noruega, também ele conduzia a sua própria investigação e ao fazê-lo deixa pistas importantes.

Horst aproveita o trabalho jornalístico de Line para refletir sobre o processo da escrita. Nos seus trabalhos jornalísticos, Line usa uma linguagem simples e funcional, mas ao pretender escreve um artigo de fundo sobre a vida de alguém que terminou os seus dias esquecido e de quem ninguém sentiu falta, precisa de criar um fluxo narrativo, dar-lhe uma certa textura e encher de vida as pessoas sobre as quais escrevia. Essa densidade, que leva o leitor a identificar-se com a história, é uma das marcas da escrita de Horst.

Muitos dos solitários são-no por opção e encerram um mundo dentro de si. Demónios instalam-se nas suas vidas e reclamam-na como sua, sem que o próprio se aperceba que deixou de existir. Pode ser o resultado de uma desadaptação social que leva ao desejo de permanecer anónimo; mais do que serem esquecidos, pretendem não ser descobertos e transformam-se num homem das cavernas. Horst, a par da trama policial que resulta da investigação que Histing conduz, insere um outro nível na narrativa passando do tema da solidão aos fortes e insondáveis motivos que levam alguém a pretender desaparecer. Afinal, Line descobre que o morto, esquecido em casa, não ocupava a poltrona habitual, a que usava para assistir aos seus programas favoritos.

Talvez seja essa a maior solidão de todas. A de nem sequer se ter lugar nos pensamentos dos outros.

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