William Blake: Eve Tempted by the Serpent
Eu já acordei meio tremendo, o coração acelerado, sabendo que tinha alguma coisa ali. Alguma coisa sibilante, pra piorar. Uma coisa que sibilava
Isabela Nunes
No princípio era o Verbo
E eis que a Terra era sem forma e vazia
E havia Trevas sobre a Face do Abismo
E dissemos Nós:
Olha como Dança essa filha da puta
*****
— A alergia do olho voltou.
I. se inclina sobre o espelho do armário. Os dedos, ainda gordurosos do pedaço de pizza que serviu de jantar, deslizam pela camada seca e enrugada de pele que lhe cobre o olho. Pequenas listras brancas e áridas se escondem no canto da pálpebra. Se lhe cortassem o resto do rosto e lhe sobrasse só os olhos, fechados e em close cinematográfico, ela bem poderia passar por uma velhinha de oitenta anos.
— É?
— É. Pega o bepantol pra mim aí.
Um tubo azul cruza o quarto em uma parábola perfeita. I. se recosta na cama, afastando-se do espelho, e puxa a coberta rosa estampada de morangos por sobre o queixo.
— De nada. Porta fechada ou aberta?
— Pode fechar. Boa noite, J..
— Boa noite, I..
Uma porta quase fecha. J. nunca a fecha completamente, porque sabe que I. tem medo de ficar encerrada sozinha lá dentro. Ela escuta um pequeno clique no interruptor grudado ao armário e de repente o quarto é vazio e sem forma.
— J.?
— Quê?
— Acende a luz?
O interruptor clica de volta.
E houve luz.
****
— A primeira apareceu quando?
— Dois, três dias, talvez. Não sei. Acho que tô ficando maluca, O. Lelé da cuca. Doida de pedra. Maluca mesmo sabe. Não maluca que nem eu falo às vezes. Não maluca tipo “nossa eu sou maluca né” só pra ouvir você dizer que eu não sou. Não maluca como sinônimo de exagerada. Maluca maluca.
— Mas sei lá, você tem certeza mesmo que é da sua cabeça isso? Vai que a coisa toda é de verdade e você tá aí perdendo tempo achando que tá louca em vez de pedir logo pros seus pais chamarem um dedetizador ou seja lá quem for que lide com isso.
— Eu não sei, mas com certeza tem uma maluquice em ação aí e se não for a minha então é o mundo que pirou de vez. Não faz sentido nenhum isso tudo. Eu juro pra você, não são animais normais. Juro pra você. Não tem como não ser maluquice.
— O seu irmão não viu nada?
— Nadinha, O. É assim: eu me apronto pra dormir, como sempre. J. entra pra escovar os dentes, como sempre. A gente troca boas-noites, eu me deito, ele sai, fecha a porta e apaga a luz, como sempre. Agora eu não tô tão fã assim do escuro, como você pode bem imaginar, então deixo a luz acesa sabe. Afastar as trevas e tal. E aí tudo bem: ele sai, eu viro pro lado, puxo a minha cobertinha pra debaixo da cabeça, fecho os olhos e tento dormir. E aí tipo só depois que ele sai, quando eu tô bem perto de dormir, naquele estado meio dormindo e meio acordada, aí elas chegam. No começo achei que era tudo sonho mesmo porque nesse estado assim a gente sempre meio que sonha e não sabe dizer que tá sonhando né. Mas daí que é só elas chegarem que eu me desperto total sabe, não é a sensação de sonho. Agora sei lá a única hipótese que faz sentido é alucinação pesada mesmo, piração de vez. Mas enfim. Daí eu fecho os olhos, me viro e elas chegam. No começo eu deixava a luz apagada então nem via. Mas o barulho. O barulho não dá pra não ouvir, O. Juro pra você. A primeira, há uns cinco dias, apareceu do nada. Tipo, literalmente. Eu tava lá, tentando dormir, tranquilinha com a minha cobertinha rosa, e de repente eu escuto esse sibilo bem do lado do meu ouvido. Bem do lado. E olha tava chovendo super forte nesse dia, um somzasso de chuva cobrindo a noite toda, e você sabe como minha audição é toda fodida por causa de todas aquelas horas inconsequentes de música altíssima no fone de ouvido, então você pode imaginar que tenha que ter sido um barulho realmente alto pra me acordar do meu estado semi-onírico-delirante daquele jeito. Eu já acordei meio tremendo, o coração acelerado, sabendo que tinha alguma coisa ali. Alguma coisa sibilante, pra piorar. Uma coisa que sibilava, O. Você tá entendendo meu desespero? Sibilava. E aí por mais que eu quisesse fingir que não tava acontecendo nada e sei lá quem sabe talvez só continuar a tentar dormir tranquilinha, tranquilíssima com a minha cobertinha amorangada, como se tivesse tudo beleza e supertranquilo, e mas daí eu fui obrigada a abrir os olhos porque o barulho sibilante continuava, cada vez mais alto agora, cada vez mais perto, e à essa altura eu já tava prestes a ter um piripaque de medo, um ataque pesado do coração, e aí eu abri os olhos e tava tudo vazio e sem forma, aquele breu eterno da Noite, e o sibilo chegando perto, quase entrando no meu cérebro agora, e aí eu estendi a mãozinha tremelicante em direção ao meu fiat-lux próprio & particular e aí teve esse pequeno clique interruptorístico que rivalizou com o sibilo por um segundinho e aí de repente essa luz tão clara que até doeu meus olhos alergicamente secos. E aí, ali bem na minha frente, bem na minha cara, o rosto verde sibilante da Primeira me olhando. A linguinha vermelha bifurcada fazendo ssss pra mim. Eu sei que dizem que cobras são cegas, mas juro pra você, O., os dois pontinhos pretos dessa cobra tavam me olhando. Me vendo por inteira, me fotografando em raio X. Eu juro, O. E o mais estranho de tudo é que, assim que eu vi ela ali, a um palmo do meu nariz, uma situação em que qualquer pessoa minimamente sã simplesmente arrancaria os cabelos da cabeça e sairia gritando pelo quarto, quando eu vi ela aquele medo pré-piripaque que eu tava sentindo sumiu. Simples assim: puf, sumiu. E aí tudo que eu sentia vindo da Primeira era essa calma cautelosa. Essa vontade de ficar e descobrir de qual que era, sabe. E aí foi isso, com a Primeira.
— Eu, hein. Que maluquice, I.
— Eu falei. Maluquice total.
— I., sabe o que é estranho?
— Manda, O..
— Eu meio que sonhei com cobras esses dias também. E você tava no sonho. Você era o sonho inteiro pra falar a verdade. Tipo meio que era pra você na verdade. E foi antes dessa história toda, sério mesmo. Não sei por que não contei antes.
(…)
— No sonho eu tinha sei lá dropado um doce ou alguma coisa assim e tava doidona e a gente tava na fazenda do seu avô. E então eu tava conversando com esse meio-que-oráculo que não falava a minha língua mas de repente tava conversando comigo em inglês, e aí de repente ele falou alguma coisa e então você brotou do nada. Tipo, literalmente brotou. Do nada. Daí que você meio que era uma árvore podre e tinha esse tanto de fruta feia e fedida nos seus pés de árvore podre, e aí você foi brotando do chão aos pouquinhos meio que com umas veias pretas subindo pelo seu corpo-tronco, e aí o oráculo me explicou que isso era tipo uma metáfora e os frutos eram escolhas e você era a jovem embaixo da árvore que ficou na dúvida eterna de qual fruta escolher e tal e aí de tanto ficar pensando não escolheu nenhuma e todas morreram e caíram e aí ficaram ali mesmo, feias e fedidas. Que nem aquela tal de Sylvia Plate que você gosta sabe. E aí foi uma maldição, você virar a árvore podre e tal. Porque né mó palhaçada você ficar enrolando pra decidir se comia a maçã, se não comia, se pegava a vermelhinha lá de cima, a meio farofenta da ponta ou a verdinha da esquerda; caralho, I., quem sabe você podia até ter pegado todas de uma vez e feito sei lá a porra de um suco de maçã sabe, mas você só ficou sentadinha lá, quietinha, paradinha. E aí a maldição, o oráculo disse. Ele disse que era tipo uma risada do universo na sua cara tipo olha-aí-o-que-é-que-esse-tanto-de-pensamento-abstrato-sobre-o-que-é-bom-ou-ruim-vai-fazer-por-você-enquanto-você-apodrece-estaticamente-aí. E aí alguma coisa dentro de você tipo estalou. E aí o tronco podre foi se quebrando aos pouquinhos, meio que craquelando assim. Daí o oráculo pegou e falou que é sempre assim, que você chega no fundo do poço maçãzístico e de repente estala e volta, com vontade de fazer de novo, de desapodrecer, de finalmente deixar de ser tonta e pra variar fazer um suco de maçã, com vontade de mais, de escolher qualquer coisa que seja por conta própria e tal. Pra depois deixar os frutos apodrecerem de novo e chegar no fundo do poço de novo e aí virar árvore podre de novo, porque você é assim mesmo. Mas ele disse tipo, que cê só precisa aprender a eliminar interferências, essas outras vozezinhas que falam mais alto que a sua na hora desses pensamentos abstratos todos, essas vontadezinhas suas de pegar pessoazinhas comuns, homens meia-boca comunzinhos, gente normalzinha, transbordando defeito que nem eu e você sabe, e transformá-las em Deus e tentar fazê-las de exemplo sobre como ser e agir e pensar e escrever e do que gostar e não gostar e de qual maçã escolher e tal; eliminar interferências, ele disse, só isso, e aí você fica novinha em folha, cheia de conhecimento seu e só seu do que é bem e mal. Até achar novas. Interferências. E aí eu perguntei mas bem se a árvore morreu e apodreceu como é que você continua voltando. E aí ele respondeu que tipo você meio que tira uma muda de você mesma, pra plantar de novo depois. E aí tem sempre escolhas novas se abrindo no seu caminho, maçãs novas pra você comer antes de cair. Pelo que eu entendi. E então tipo o tronco da sua árvore podre começou a quebrar e tal, e aí você foi saindo de dentro, mas meio que era e não era você ao mesmo tempo. E o oráculo disse que era porque tava rolando essa super luta dentro de você, uma luta tipo Odalisca x Medusa, o terrivelmente Belo contra o terrivelmente Pavoroso, e você era e não era você mesma ao mesmo tempo porque nenhum lado tinha ganhado ainda. E aí o oráculo disse que esse é tipo o teu ciclo sem fim. O recomeço infinito. A ressurreição, de novo e de novo, de vida em vida, de Eu em Eu, de árvore podre em árvore podre. Ecdise. E tal. E o oráculo disse que era pra eu te ajudar. Porque eu era a sua sacola de talismãs ou sei lá que coisa viajada-esotérica ele disse.
— Fala sério. Não tem a mínima chance de você ter sonhado isso mesmo, O. Porque ia ser uma coincidência muito maluca. Se cê tem alguma coisa pra me falar pode falar na cara dura mesmo sabe, não precisa disso aí. Tipo assim você tem algum problema com as escolhas da minha vida até agora?
— Eu tô falando seríssimo, I. Tô até assustada. Sei lá, não parece meio coisa de Destino isso? Esse sonho e depois as suas cobras e tal? Talvez a Vida olhando pra você e querendo pessoalmente te dar um recadinho?
— Olha, eu sei lá. Às vezes eu fico pensando nisso de Vida. Porque tipo e se isso que você chama de Vida na verdade é um programa de computador e o que a gente chama de Destino ou Coincidências Malucas são parte de um algorítimo que, daquela mesma forma esquisita e levemente assustadora que você fala “Coca-cola” e milhares de anúncios da Coca-cola de repente aparecem pra você em tudo quanto é lugar, um algorítimo que é ativado por aquelas coisinhas em que você não presta atenção de verdade — mas estão ali, estiveram ali — , tipo uma coisa que você falou um dia ou um um filme ou um capítulo de livro sobre Cobras etc., e na soma final das coisas, ainda que tudo tenha uma causa bem traçável e um algorítmo de computador seja tudo menos mágico, na soma final das coisas você ainda fica com aquela sensaçãozinha meio espiritualizada e fantasiosa de que tudo tá conectado e você é na verdade parte de um todo tão grande que não dá nem pra imaginar quão grande e as escolhas que você pensa serem suas são na verdade um pontozinho de costura no tapete gigante de um padrão definido e já costurado por alguém que não é você. E aí se for assim mesmo que diferença faz se você escolhe a maçã ou se fica catatônica pensando em escolher se no fundo é só a ilusão da escolha que você tem mesmo e na verdade você não tá no controle de nada, nadinha, e nem a agulha que você achava que tava segurando pra começar a costurar é uma agulha mesmo.
— Cabeça doendo aqui de tentar acompanhar esse raciocínio seu aí, I.
— Maluquice.
— Maluquice.
— (…)
— Mas é sério, I., não subestima essas Cobras aí não.
— Eu esqueci de contar a parte mais maluca. Quer dizer, se der pra ficar mais maluco que isso tudo.
— Fala aí.
— Eu acordei de manhã e tava lá a casca vazia e seca dela, sem forma mas meio que desenhada perfeitinho. Tinha trocado de pele, a Primeira.