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| Fotografia da minha autoria |
«Reféns da violência e da carnalidade»
Avisos de Conteúdo: Violência, Misoginia, Consumo de Drogas, Morte, Cenas Explícitas
O ambiente é exclusivamente masculino, porque as mulheres foram expulsas. Pior, a sua memória foi apagada. Escrever isto é de uma crueldade tremenda, mesmo que seja a representação de um mundo distópico, no entanto, ler o livro de Hugo Gonçalves é compreender que este cenário não é tão descabido.
DELÍRIO IDEOLÓGICO E VULNERABILIDADE HUMANA
O Coração dos Homens é a história de um grupo de amigos que cresce numa Cidade-Estado e que vê o pugilismo a ser glorificado, «elevado a desporto nacional». O que é que estas duas premissas têm em comum? O perpetuar da força física, da virilidade, da toxicidade. Portanto, elimina-se qualquer rasto feminino, porque é um ser menor, com fraqueza de espírito por não esconder os seus sentimentos, a sua vulnerabilidade. Inclusive, os protagonistas não têm direito a ter um nome próprio, porque são só uma imagem totalitária.
«Nunca poderão assumir o medo. Porque são homens»
Houve partes que me pareceram um pouco apressadas, com passagens temporais que preferia que fossem menos espaçadas, porque queria mergulhar mais a fundo na vida dos protagonistas. Apesar disso, foi impossível largar o livro. A escrita do autor é crua, os cenários nunca são romantizados e, no fim, ao ler a sua nota, as referências tornaram-se muito mais claras. Só a título de exemplo, O Coração dos Homens foi instigado pela «inquietação que lhe causaram os ataques terroristas de 11 de setembro», pelo facto de ter praticado boxe, ter vivido em Nova Iorque e ter estudado num colégio de padres, sem raparigas. A combinação destes elementos proporcionou a exploração deste enredo, que evidencia a violência do fundamentalismo, os códigos da masculinidade que são impostos pela sociedade e a complexidade das relações humanas.
«E, sem memória, a culpa não existe»
Estes homens foram sempre privados de liberdade, principalmente da liberdade de ser e de sentir que o medo, os afetos e as emoções não os diminuem. No fundo, houve sempre algo que lhes faltou e há um momento em que, pelo menos um deles, fica mais consciente disso. Portanto, acompanhamos estas trajetórias oscilantes.
🎧 Música para acompanhar: Battle Scene, Hans Newman
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