Fotografia da minha autoria

«Terá ela outra escolha? Será o perdão possível? O que estará Kamryn disposta a fazer pela amiga que lhe partiu o coração?»

O vínculo emocional que determinados livros nos despertam é sempre reconfortante e mágico, porque há um traço familiar e próximo que não mais nos abandona a memória. E quando as histórias nos falam mesmo ao coração, por mais que o tempo avance e por mais que nos aventuremos noutros enredos, nunca nos esquecemos delas: fazem morada em nós e ocupam um lugar bonito na nossa alma. Ainda hoje, Bons sonhos, meu amor continua a ter impacto e a ser especial. Por isso, quando surgiu a oportunidade, regressei a Dorothy Koomson.

A Filha da Minha Melhor Amiga aborda questões delicadas - como a traição, a morte e a adoção -, que nos deixam em suspenso só de nos imaginarmos a vivenciá-las. Por oposição, preserva uma mensagem de esperança. E de amor. Porque há pessoas com uma luz pura, que nos inspiram a sermos melhores. Imaginem perderem a ligação com alguém que vos foi importante e, anos mais tarde, os caminhos cruzarem-se para se envolverem num acontecimento dramático e num pedido que provocará uma reviravolta profunda na vossa vida. No mínimo, seria confuso e angustiante. E assim o foi para Kamryn, que se viu forçada a tomar uma decisão que lhe implicou duas condições: primeiro, maturidade suficiente para não permitir que o passado condicionasse o presente - e o discernimento de agir em conformidade com os seus valores; segundo, generosidade, altruísmo e sentido de compromisso, uma vez que teria outro ser humano dependente dos seus cuidados. Isso não é só desafiante. É um ato corajoso. E uma aprendizagem constante.

Esta obra vira-nos do avesso. Faz-nos questionar a força das nossas convicções. Demonstra-nos que o caminho nunca é feito em linha reta, que há dúvidas, que as curvas podem ser desgastantes, devastadoras, mas igualmente felizes e que as certezas absolutas podem desmoronar-se como um castelo de cartas ao vento. Embora nos acrescentem, as relações interpessoais conseguem ser imprevisíveis e frágeis. Porém, o mais relevante a retirar desta narrativa é o valor da amizade, pois existem bases que nunca se quebram, mesmo depois de erros quase fatais. Perante situações extremas, fecha-se os olhos ao que já passou: por respeito, por consideração ao que se viveu e porque há um novo futuro a ser trilhado. Além disso, destaca-se a capacidade que a protagonista tem para pensar para além de si. E fomenta-se o renascer, a partilha e o lado humano. Há, portanto, ligações que apenas necessitam de um recomeço, ainda que este surja em ocasiões extremas. Assim, A Filha da Minha Melhor Amiga é também um alerta para sermos honestos - connosco e com os outros -, para não arrastarmos os problemas e para não deixarmos conversas pendentes. O tempo é finito. E a culpa de nada nos servirá quando as pessoas partirem.

Fiquei rendida a todo o desenrolar da ação, porque tem contrastes bastante equilibrados. Consegue ser crua e cruel quando expõe a violência, a negligência, os maus-tratos. Mas igualmente serena, sobretudo, quando atingimos conquistas que nos consentem respirar fundo. Acalmar. E desfrutar da jornada. Numa espécie de campo de batalha, este livro leva-nos a analisar a nossa bagagem e a luta que travamos por dentro. Transmite uma sensação de abismo e de salvação. E uma montanha russa de emoções fortes. Dorothy Koomson tem uma escrita fascinante, verdadeira e envolvente, fazendo-nos mergulhar por inúmeras camadas e levantar questões morais. Em simultâneo, foca-se num cenário em que as relações são constantemente colocadas à prova, apelando à nossa sensibilidade e ao perdão. E o mais fascinante é que sentimos o crescimento natural das personagens.

A história tem tragédia e passagens que nos arrancam sorrisos e gargalhadas. E esta alternância está mesmo bem construída. A Filha da Minha Melhor Amiga tem um enredo marcante. É uma lição de vida. E a sua pluralidade de temas só comprova a nossa complexidade. Porque, apesar de sabermos quem queremos ser e para onde pretendemos ir, nada é garantido. É por isso que estamos sempre numa viagem de autodescoberta. Entre a racionalidade e o lado sentimental, esta leitura é comovente. Única. E uma autêntica revelação.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«A porta estava entreaberta e não se queixou quando eu a empurrei devagarinho. Não bati. Nunca batia a uma porta já aberta, pois, para mim, isso queria dizer sempre "Entre, não é preciso bater"» [p:18];

«Tínhamos de estar preparados para abdicar de tudo em prol das crianças. De tudo. De tempo, de espaço, de afeto. Eu não era altruísta a esse ponto e recusava-me a fingir que tinha tal inclinação só para parecer "normal"» [p:63];

«Ao voltar, mais tarde, de uma reunião com o chefe do departamento infantil, encontrei um Twix na minha secretária, com um bilhete que dizia o seguinte:

A Tegan disse que gostava de chocolate

Luke» [p:200];

«- Estou?

- Volta - disse eu.» [p:250];

«Tudo podia dar certo entre nós quatro, pensava eu enquanto nos dirigíamos para casa. Podia mesmo. Se eu parasse de tocar no meu pescoço, percorrendo com os meus dedos o rasto deixado pelos beijos de Nate» [p:388].

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