A democracia merece sobreviver? Que ideal de democracia vivemos nessa nossa época? O que se tornou o ideal democrático forjado nos EUA a partir do final do século XVIII?
Entrar em contato com o discurso democrático do século XIX é perceber que seu ponto central é a educação, não (ou pelo menos não somente) como alavanca para ascensão social, e sim como possibilidade de criar cidadania. E cidadania gera igualdade (não o contrário). Só é cidadão quem participa das grandes questões, quem as compreende. Nesse sentido, é interessante notar que mesmo persistindo as diferenças econômicas, o trabalhador norte-americano oitocentista estava preparado para participar dos assuntos públicos, ao contrário do trabalhador médio europeu. Isto chegava a assombrar, quando não chocava, observadores estrangeiros, o fato de americanos comuns terem opinião firmada sobre assuntos inimagináveis, e principalmente o fato de não terem o sentimento de “deferência”. O que definia a sociedade democrática não era a ascensão social e sim a ausência de distinção entre o “homem do povo” e um “cavalheiro bem nascido”.
Mas esse ideal degradou-se. A ênfase da educação passou a ser a ascensão pelo talento. A educação deixou de ser universalizante (portanto, um legítimo instrumento democrático), passando a ser um sistema de recrutamento de líderes, o ideal de uma nova forma de elite.
Temos, então, o caminho aberto para as elites de hoje, as do mundo informatizado, neoliberal, o mundo do mercado global, um mundo em que as divisões sociais estão mais intensificadas. Um mundo em que a informação a educação, degradadas a um nível baixíssimo, alijam o cidadão comum de questões que ele nunca chega a compreender. E para ele persiste a sensação de que o trabalho não vale a pena e de que os políticos estão pouco preocupados com os problemas reais que afligem as pessoas no dia-a-dia; já as novas elites cultuam aparentemente um ideal de multiculturalismo, de diversidade, de mobilidade e cosmopolitismo, e alienam-se da falência geral do sistema democrático, criando defesas contra o colapso, através do poder do dinheiro: escolas particulares, bairros residenciais afastados, vigilância privada, saúde privada, lugares programados para a diversão, onde tudo é controlado, monitorado, vigiado.
Esse convite à indiferença, ao hedonismo, à complacência, à falta de responsabilidade civil, e a subversão do ideal democrático pelas elites são algumas das pedras-de-toque de A rebelião das elites e a traição da democracia, de Christopher Lasch(em tradução de Talita Rodrigues para a Ediouro),infelizmente falecido em 1994, ano em que publicou The revolt of the elites and the betrayal of democracy1.
O leitor desta minha coluna talvez se espante por ver comentado um livro desse teor, tão distante da ficção ou da poesia, contudo há textos que alimentam de tal forma a inteligência, que são tão importantes para a compreensão do espírito de uma época, que funcionam como a contrapartida necessária às obras literárias.
Evidentemente, é o caso do livro de Lasch, na minha opinião um dos grandes pensadores, historiadores e debatedores de ideias deste final de século (como já provara em outro livro especialíssimo, O mínimo eu, lançado no Brasil pela Brasiliense).
A rebelião das elites, no julgamento leigo de quem aqui escreve, é um livro que coloca num foco claro e perturbador todas as questões aflitivas e importantes do nosso tempo, indo à origem delas e terminando com uma magnífica reflexão sobre religião. Na sua incrível lucidez, desmascara o neoliberalismo que hoje ameaça destruir o Brasil e confirma o acerto intuitivo de várias obras literárias.
É um livro que nunca encontrará substituto na cabeceira de quem deseje ser uma pessoa e um cidadão.
P.S.- Ninguém pense, com isso, que ele seja confortável de ler, ou confortador.
1 Esta resenha foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de maio de 1996.
nota- Um texto interessante sobre Lasch pode ser encontrado em http://batalhafinal.blogspot.com.br/2006/04/christopher-lasch-direita-ao-lado-do.html




