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Jan23

Maria do Rosário Pedreira

Estreei-me recentemente na obra de uma autora alemã já firmada, Judith Schalansky, com o extraordinário O Pescoço da Girafa (traduzido por Isabel Castro Silva, agraciada com o prémio de Tradução). E digo «extraordinário» porque é mesmo um romance fora do normal. Acho que o único outro livro que ressoou em mim a partir deste foi A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, pela introdução da perspectiva de física e da matemática nas relações entre as personagens. Desta feita é a Biologia que tudo rege (basta ler as cabeças das páginas ímpares, todas elas revelando um conceito científico relacionado com a  evolução das espécies). A protagonista (de resto, bem vistas as coisas, ela é quase a única personagem no livro digna desse nome) é professora de Biologia num liceu da Alemanha de Leste pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim; e vive de tal forma obcecada em transmitir os seus conhecimentos que, chegados ao fim do livro, veremos como a profissão sempre contou para ela mais do que tudo, incluindo o casamento e a maternidade (a filha, Claudia, vive nos Estados Unidos). Mas é também um livro sobre a iminência do fim de um tempo, a consciência do erro, a implacabilidade do carácter, os vícios das ditaduras e a inadaptação ao novo, além da descoberta de uma certa pulsão desconhecida. Muitíssimo original e tremendamente informado (esta senhora sabe mesmo de ciência!), deixou-me agora curiosa para ler um outro romance da autora que saiu em Portugal antes deste e foi incrivelmente elogiado (Inventário de Algumas Perdas). Se gostam de coisas fora da caixa, este romance é mesmo a escolha certa.