Diego Lops (diegolops.substack.com) ficou em primeiro lugar, com o conto abaixo.


Baseado Em Uma História Real

Judite nasceu em uma família pobre, na zona rural de uma cidadezinha de 3 mil habitantes no interior do estado. Todo dia de manhã, acordava a duras penas com os gritos do pai, ainda antes que o astro-rei lançasse seus dedos róseos no horizonte. Tomava um copo de leite morninho e saía em desabalada carreira para a escola, que ficava a 5 km da sua casa, com sua maleta cheia de livros e esperanças. Fizesse chuva, fizesse sol, seu pai não permitia que a pequena Judite faltasse sequer a um dia de aula, embora ela fosse muito útil para ajudar com os animais e com a roça. Por isso, quando ela caiu da goiabeira enquanto brincava naquele sábado e quebrou a perna, seu Domingos ficou desconsolado. A menina não teria como ir sozinha à escola, e também seria inútil para ajudá-lo nas tarefas do dia. Mas seu Domingos teve uma ideia, e arregaçou as mangas para colocá-la em prática. Seria difícil, mas não impossível, afinal era brasileiro e não desistia nunca. O que ele fez foi

— Cahãm!

Sete pares de olhos voltam-se imediatamente para Suzana.

— Oi? — diz um surpreso Rafael.

— Alguém tem algo a dizer sobre o texto do Rafael?

— Mas eu não terminei de ler ainda, eu arrecém...

— E já foi o suficiente — interrompe mais uma vez Suzana.

— Então, alguém se habilita?

Gina, uma moça pequena, levanta a mão. Suzana faz um gesto para que fale.

— Bom, eu... acho que, tipo... sei lá... a tarefa não era “descrição de personagem”? Aí ele tipo... meio que começou a contar uma história...

— Exato! — grita a ministrante do curso. — O Rafael fugiu do tema completamente. A tarefa que dei pra vocês semana passada foi bem clara: “descrição de personagem”. São coisas bem objetivas: é homem ou mulher? Jovem ou velho? É preto, branco, amarelo, vermelho, azul? O que ele faz? Onde trabalha? É tímido, extrovertido, punk, rastafári, um pastor da igreja universal, uma prostituta, um político? Tem alguma marca particular? É manco, tem uma tatuagem de lágrima no rosto, usa chapéu coco? O que ele quer? Tem sonhos, ambições? Pode dar sim um pouco de background pro personagem: teve um trauma de infância, é viúvo, já foi preso? Mas deem isso ob-je-ti-va-men-te! Não é pra contar historinha, não agora! Se alguém tiver feito a mesma coisa que o Rafael aqui, por favor, rasgue e comece tudo de novo. Entendido? Muito bem.

Todos permanecem em silêncio e imóveis, apenas Rafael levanta a mão.

— Sim, Rafael?

— Eu estava ciente de qual era a tarefa, e decidi escrever assim pois era a única maneira de dizer algo de extrema importância sobre a minha personagem, e se a senhora não tivesse me interrompido no meio da leitura, teria entendido como essa narração inicial era vital para a descrição da minha personagem.

— Claro, claro que sim — diz a professora sarcasticamente.

— Só que, infelizmente, fugir do tema não foi o único problema com o teu texto, Rafael querido.

— Ah, não?

— Sério que ninguém mais aqui viu problemas com o texto do Rafael?

Silêncio assustado na sala. Ela pega a folha de cima da mesa de Rafael.

— Então vejamos... “duras penas”, “fizesse chuva, fizesse sol”, “desabalada carreira”?! O que é isso, gente? O festival brasileiro dos lugares-comuns? “Astro-rei”! ASTRO. REI. Rafael, pelo amor de Santa Batilde, nunca mais escreva “astro-rei” na sua vida, me promete? Isso empobrece o texto, é marca de quem tem pouca criatividade, pouca carga de leitura, gente! Deixa eu ver se deixei passar algum... Nossa, esse aqui é pra fechar com chave de ouro: “é brasileiro e não desiste nunca”! Ai, meus sais, Rafael, não é possível isso. Um texto assim, recheado de clichês, jamais vai ser aceito por uma editora, pelo menos não por uma editora séria.

Ela recoloca o papel sobre a mesa de Rafael.

— Bom, gente, por hoje foi isso. Para a próxima terça o tema vai ser “descrição de cenário”. Leiam o texto que eu enviei por e-mail hoje.

Todos se levantam lentamente, Rafael é o primeiro a sair da sala. Tamires o encontra no elevador.

— Nossa, hoje ela pegou pesado, né? — diz Tamires em tom consolador. Rafael responde com um dar de ombros, olhando para baixo. Tamires tenta mais uma vez:

— Não dá bola pro que essa mulher diz. Quem ela é, afinal? Só porque publicou meia dúzia de livros, tem coluna em revista, ganhou um Jabuti... bom, talvez ela seja alguém, mas...

— Talvez ela tenha razão — diz Rafael.

— No quê?

— Em tudo! Talvez eu não sirva pra isso. Só porque meu pai era escritor não significa que eu tenha um gene da escrita. Eu nunca vou escrever nada que preste! Pra que tentar enganar os outros? Pior ainda, pra que ficar me enganando?!

— Que papo é esse, Rafael? Você tem um potencial enorme. Não deixa essa vaca te abalar, não. Quer tomar um café para desabafar?

— Não. Vou pra casa.

— Eu pago — diz Tamires sorrindo.

— Não — diz ele resoluto. — Tenho que ficar sozinho, pensar nisso tudo. Café não vai resolver meus problemas agora.

— Beleza, mas se precisar de um ombro amigo, tamos aí

— diz Tamires, dando uma piscadela que Rafael não chega a perceber.

Na terça-feira seguinte, duas mesas vazias causam incômodo durante a aula inteira. A de Rafael e a de Tamires, que no dia anterior encontrou o corpo.

— Muito bem, muito bem. Gostei, Adriana. Interessante... Tem uns recursos bacanas... Aquele elemento metalinguístico do começo foi divertidinho, só não dá pra abusar... Soube desenvolver... Tu tem evoluído, mesmo... E, ao contrário do personagem, soube seguir o nosso tema, que eram duas exigências: “usar um colega de sala como personagem”, o que sobrou pra Tamires, e “deve haver uma morte”, o que, por sorte, não sobrou pra ninguém — diz Celso, arrancando algumas risadas da turma de Leitura e Produção Textual II.

Adriana sorri, satisfeita consigo mesma. Celso, apesar de experiente, sempre fica desconcertado ao avaliar publicamente os textos de Adriana. Não quer dar margem a desconfianças, então não pode ser nem muito benevolente nem crítico em demasia, mas sempre se perde ao buscar esse equilíbrio.

— Claro, há algumas questões a rever — diz ele, desmoronando o sorriso de Adriana, que ainda não aprendeu a lidar com suas críticas artificiais.

— Por exemplo? — pergunta ela colocando as mãos embaixo do queixo, provocativa. Ele pega o texto e procura por alguma falha.

— Por exemplo... a ministrante da oficina de escrita criativa do seu conto censura o estudante pelo seu uso descuidado da linguagem, pois exagera no uso de “clichês e lugares-comuns”, mas o narrador em terceira pessoa, criado por você mesma,

também dá suas escorregadelas, abusando, por exemplo, dos advérbios de modo. Vejamos: “os olhos se voltaram imediataMENTE”, “a professora diz, sarcasticaMENTE”, “se voltaram lentaMENTE”, “fugiu do tema completaMENTE”. É isso, infeliz...”, e a turma completa em uníssono:

— MENTE!

Adriana comprime os olhos, irritadiça. Mas nem tanto. Re- conhece que a recente proximidade com o professor Celso tem melhorado sua escrita, além de seu desempenho acadêmico. Sente que é superior aos demais alunos, e por isso mesmo se incomoda por ter de guardar esse segredo. Acha que ele deve ter a hombridade de assumi-la. Mas guarda um silêncio torturante e não conta nada para ninguém. Exceto, claro, para Joana, sua melhor amiga desde sempre. Já Celso, recém-separado, vive um momento de excitação constante, tanto por estar tendo um caso com uma aluna 23 anos mais jovem como por este caso ter que ser às escondidas, pois abri-lo a todos poderia ser fatal para suas ambições de carreira. Porém, experiente que é, sabe que a relação com Adriana é superficial, que a paixão dela por ele faz parte de um fenômeno comum em todos os níveis de docência, quando a admiração intelectual de uma aluna se confunde com desejo. São desejos efêmeros, e ele pretende tirar o máximo proveito disso.

— Amor, vem aqui um pouquinho? — diz Ciro.

— Que foi?

— O que é isto aqui? — pergunta ele sem desviar os olhos da tela do notebook de Andrea. Ela se aproxima, enxugando os cabelos.

— Ué, o meu texto pra tua próxima aula.

— Como assim, teu texto para minha próxima aula?

— Foi o que eu disse, ué.

— Andrea, meu amor, tu sabe que eu não poss..., que a gente não pode expor o nosso relacionamento.

— Claro que sei!

— E esse teu texto, meu amor, o que é que está fazendo?

Você não acha que as pessoas vão desconfiar?

— Ai, nada a ver, todos os elementos são ficcionais.

— É mesmo?! Só trocou os nomes por outros nomes que começam com a mesma letra! A aluna Andrea virou Adriana, eu virei Celso, e essa Joana, quem será, senão a tua melhor amiga, a Júlia? Porra, Andrea, por favor, você não pode estar falando sério! Aliás, você contou mesmo sobre nosso relacionamento pra Júlia? Porra, logo a Júlia!

— Já ouviu falar em ficção, escrita criativa?

— Não entende como isso pode me prejudicar? Pode nos prejudicar?

— Eu, hein? Nem parece que ensina Produção Textual e Teoria Literária.

— Andrea, o exercício criativo foi muito bacaninha, mas você não vai ler esse texto em sala de aula!

— Ah, não? E quem vai me impedir?

— E essa história de colocar o professor com “23 anos a mais”? A gente só tem 8 anos de diferença, por acaso você tem fetiche por homens tão mais velhos?

— Ai, essa conversa tá me cansando, viu?

— Não fode comigo, Andrea.

— Ué, achei que essa fosse a força motriz da nossa relação.

— E aquela coisa toda sobre os advérbios... São exatamente as palavras que usei em sala de aula.

— Gostou desse toquezinho de verossimilhança?

— Andrea, vamos ser adultos agora. O que a diretora da faculdade vai dizer quando souber que eu estou comendo uma aluna?

— “Uma aluna”? Umazinha qualquer? Então é isso que eu sou pra você, mais “uma aluna” que você tá “comendo”?!

— Você sabe que não, meu amor! Estou é tentando olhar a situação pelo lado da direção, eles não ficariam nem um pouco contentes com isso.

— É medo de perder o emprego, então? Eu não valho esse sacrifício?

— Claro que vale! Mas é que... a minha situação é... delicada, você entende.

— E a minha, então? Eu não aguento mais isso, Ciro!

— Amor, tudo vai dar certo.

— “Amor, vai dar tudo certo” — Andrea repete, imitando a voz de Ciro. — Ai, Ciro, sabia que você daria um péssimo personagem?

— Ah, é? Poderia argumentar melhor? — Ciro assume um tom professoral, cruzando os braços.

— É apático, sem força dramática, não enfrenta os conflitos que aparecem pela frente, se submete passivamente a sua realidade bunda-mole, enfim, tem medo da vida, não se entrega pra aventura. Assim não há história de amor que resista!

— E quem disse que isso é uma história de amor? Sua... sua inverossímil! — grita Ciro.

Andrea tenta lhe dar um tapa no rosto, mas ele segura seu braço; tenta com a outra mão, mas ele a detém. Permanecem nesse jogo de forças por alguns segundos, sentindo a respiração próxima e o calor dos seus corpos tensos. De repente, seus músculos relaxam. Andrea morde os lábios de Ciro, ele agarra sua bunda, e beijam-se antes de caírem entrelaçados na cama dele. Quarenta minutos mais tarde, com Andrea já ressonando nua ao seu lado, Ciro volta ao notebook, procura o arquivo de texto baseadoemumahistoriareal.docx, e o deleta. Fim.

— Fim?! Mais uma vez, pecando no final, Júlia. Não funcionou. Aliás, como várias coisas no conto todo. Repetitivo ao extremo. Mais extenso do que deveria. Pretensioso. Circular. Linguagem pouco trabalhada. Personagens estereotipadas. Diálogos rasos. Conflito fraco. Clássico caso em que a ideia foi melhor do que a execução. Vamos falar mais dele no próximo encontro, porque agora só temos tempo para a leitura de mais um conto. Desde que seja curto. O tema era “Baseado em uma história real”.

Carlos levanta a mão.

— Quer ler o seu, Carlos? Por favor.

— Eu fiz sobre a minha avó Judite, era uma história que ela contava pra mim quando eu era criança.

— Vamos lá. E tente articular as palavras dessa vez, ok?

— Vou tentar. Começa assim: Judite nasceu em uma família pobre, na zona rural de uma cidadezinha de 3 mil habitantes no interior do estado. Todo dia de manhã, acordava a duras penas com os gritos do pai, ainda antes que o astro-rei lançasse seus dedos róseos no horizonte. Tomava um copo de leite morninho e saía em desabalada carreira para a escola, que ficava a 5 km da sua casa, com sua maleta cheia de livros e esperanças. Fizesse chuva, fizesse sol, seu pai não permitia que a pequena Judite faltasse sequer a um dia de aula, embora ela fosse muito útil para ajudar com os animais e com a roça. Por isso, quando ela caiu da goiabeira enquanto brincava naquele sábado e quebrou a perna, seu Domingos ficou desconsolado. A menina não teria como ir sozinha à escola, e também seria inútil para ajudá-lo nas tarefas do dia. Mas seu Domingos teve uma ideia, e arregaçou as mangas para colocá-la em prática. Seria difícil, mas não impossível, afinal era brasileiro e não desistia nunca. O que ele fez foi

— Cahãm!


Quase desisti da leitura logo no começo, quando o astro-rei lançou seus dedos róseos no horizonte. Me perguntei como era possível que alguém mandasse algo assim para um concurso de contos. Mas perseverei.

E vi minhas ressalvas serem feitas dentro do próprio texto.

Diego Lops fez um conto criativo, misturando meta-linguagem, com uma tiração de sarro em cima da moda das oficinas de escrita, com críticas pertinentes ao estilo dos seus personagens, e mostrando que talvez as pessoas possam mesmo aprender muito nessas oficinas.

Acho que talvez não precisasse repetir o parágrafo inteiro no final, poderiam ser só duas frases. Mas isso é o de menos. Ficou bem legal.

Parabéns aos três finalistas!

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