![]() |
| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro protagonizado por uma criança
A voz de uma criança preserva a inocência que mantém a nossa jornada genuína, porque a sua visão é pura. No entanto, crescer em sociedade mostra-nos uma diversidade de valores que nem sempre compreendemos, até pela sensação de não serem corretos. Assim, respeitando o tema de dezembro para Uma Dúzia de Livros, selecionei um clássico que manifesta estes pensamentos e que fez Harper Lee permanecer na minha lista literária, porque a curiosidade aumentava a cada nova partilha.
«Um movimento repentino. Um pequeno movimento,
quase invisível, e a casa caiu novamente em sossego»
Mataram a Cotovia é um livro de camadas. Se, por um lado, faz sobressair um traço doce, cómico e sem maldade, por outro, é uma narrativa que nos revolta, inquieta e entristece por apresentar tantas sombras e hipocrisia. Num contexto em que o preconceito, o racismo, as desigualdades e a injustiça são fragmentos de um dialeto - quase - transversal aos habitantes de Maycomb, é inspirador compreender que há sempre alguém disposto a quebrar estes muros, mesmo que isso implique correr riscos e lutar contra o sistema. Além disso, foi um lufada de ar fresco acompanhar a curiosidade e o amadurecimento da narradora.
«- As pessoas que estão no seu perfeito juízo nunca se orgulham dos seus talentos»
A protagonista conquista-nos pela sua capacidade reflexiva, aparentando ser mais velha [conhecemo-la aos seis anos], o que creio ser uma das consequências mais bonitas da educação que recebeu do seu pai, Atticus. Aliás, a dinâmica familiar é, para mim, um dos pontos-chave deste enredo, até porque há abertura, comunicação e um vínculo de respeito e companheirismo que os torna tão íntimos e exemplares no trato - entre si e com os demais. Portanto, deambulando por temas como a escravatura, o papel da mulher, o conformismo e a discriminação, é evidente o quanto a educação é imprescindível para abraçar a mudança.
«[...] mas antes de viver com os outros, tenho de viver comigo próprio.
E a única coisa que se sobrepõe à regra da maioria é a nossa consciência»
Escrito nos anos 60, este livro permanece bastante atual: porque é um grito contra a intolerância e porque alarga o nosso espectro, atendendo a que não somos apenas santos ou vilões. Há muitas áreas cinzentas no nosso caráter, provando que todos podemos cometer atrocidades - seja por preconceito, seja por receio, seja por qualquer outro motivo. E é este pulsar de humanidade - por vezes, tão incoerente nos seus comportamentos e propósitos - que nos prende a uma realidade dura, mas com uma abordagem leve. Por isso, ri-me em vários momentos e senti o coração em alvoroço noutros tantos. Emocionei-me. E senti a subtileza de não cair em extremismos. Porque esta história transborda de simbolismo e tem uma sequência discursa equilibrada.
«Não há nada de errado com ele. Nã, Jem.
Acho que só há um tipo de pessoas. Pessoas»
Mataram a Cotovia é uma lição de vida, por nos incentivar à empatia, por nos mostrar o impacto da bondade e por ser uma luz de esperança.
«- Levas-me a casa?»
// Disponibilidade //
Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
