Fotografia da minha autoria

«A literatura é a expressão da sociedade»

A minha biblioteca em constante crescimento é, sem qualquer dúvida, um dos compartimentos que mais me define, por representar uma paixão, por ser um investimento - pessoal e cultural - a longo prazo e por evidenciar traços da minha personalidade, na mesma medida que remete para fases distintas do meu percurso. E deste processo de maturidade, que mantém os de sempre, mas que também prioriza a descoberta. A literatura é uma janela para o mundo. E eu sinto-me privilegiada por ir construindo um mapa dentro das minhas estantes de madeira.

Sempre fui muito entusiasta em relação à expressividade artística nacional, porque acredito, em pleno, na qualidade dos profissionais das mais diversas áreas. E artes. Curiosamente, por ter despertado tarde para a leitura, acabei por negligenciar os nossos autores. Nunca foi uma decisão ponderada e consciente. Muito pelo contrário, sempre foi uma escolha isenta desta firmeza. Porque, sem tornar certos nomes como prioridade, eram as sinopses que ditavam o meu caminho. No entanto, quando a minha bagagem se começou a compor, passei a questionar mais e a cuidar melhor do que tem cunho português. Nunca impus esta ligação, uma vez que defendo que isso só provoca o oposto do que procuramos, mas tem sido uma viagem bastante especial.

Em Portugal pensa-se bem. E escreve-se ainda melhor. Claro que não posso cair na tentação de generalizar, mas afirmo-o com base nos autores que me movem e que me inspiram. Ao observar os exemplares que aconchegam o meu lar, reconheço, falta-me uma maior representação de escritoras. Margarida Rebelo Pinto destaca-se, até porque só me falta um livro seu, mas sinto necessidade de alargar horizontes e de abrir as portas a todas as que me despertam maior curiosidade, como acontece com Helena Sacadura Cabral ou Rosa Lobato Faria. Além disso, pretendo investir em mais obras de Sofia Castro Fernandes, Inês Pedrosa, Margarida Fonseca Santos e Sophia de Mello Breyner Andresen. Porque este traço versátil nunca se desenlaça do meu peito.

Miguel Esteves Cardoso, por mais que a vida avance, será sempre o meu autor de eleição: pelo estilo mordaz, pela pertinência dos temas que explora, por investir em crónicas - sem deixar de ser camaleónico - e por ter uma forma única de se apropriar das palavras. É uma autêntica inspiração! Porém, neste topo de preferências, posso ainda acrescentar Miguel Sousa Tavares, Valter Hugo Mãe, Diogo Faro e, mais recentemente, Afonso Cruz. Porque têm-me proporcionado momentos inesquecíveis e outras perspetivas. Para celebrar o dia do Autor Português [22 de maio], estreei-me em João Tordo. E fiquei com a sensação de que o nosso elo se estreitará. Mas deixarei mais alguns lugares vagos no meu coração, pois estou sempre disposta a identificar-me com novos registos. Novas abordagens. Novos escritores.

A oferta tende a aumentar. Portanto, não poderia não manifestar todo o meu respeito pelos novos autores, que se aventuram a integrar um mercado complexo e, por vezes, pouco recetivo a quem chega pela primeira vez. Acredito que há muitos talentos escondidos, enquanto outros têm dado passos seguros, a expor qualidade. Por isso, a literatura portuguesa está bem entregue. Só precisa que a abracemos com confiança. Com compromisso. E de alma aberta.