Nos contos de “Mulher feita”, Marilene Felinto retrata o processo de formação de mulheres negras por diversos prismas Amanda Cruz Em um trecho célebre do clássico da literatura brasileira, Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa diz que “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”. Nos dez contos que constituem o livro Mulher feita, de Marilene Felinto, lançado pela Editora Fósforo, é possível observar pequenos e grandes eventos que são cruciais, em diferentes momentos, no processo de formação de mulheres negras. A autora mostra, assim, que essas mulheres se fazem e se refazem em meio a transformações. Desse modo, tomamos contato com mulheres feitas, mulheres se fazendo e mulheres que contam pedaços/extratos de suas feituras. As personagens dos contos estão quase sempre deixando de ser algo e caminhando para se tornarem alguma outra coisa, passando por um processo de formação permeado por transições. É o caso do conto que dá nome ao livro, em que a narrativa se desenvolve em torno do momento em que uma jovem se percebe como uma mulher que tem seios. Ou ainda, de uma das poucas personagens masculinas, no conto “Primeira morte”, que larga o ofício de escritor para tornar-se mecânico automotivo. É também a partir de uma escolha que um dos pontos altos do livro se desenvolve. O conto “Ponto cruz, ponto atrás” mostra uma menina que rompe com a mãe ao escolher, ou melhor, ao prometer a si mesma: ser feliz. O conto começa com uma frase impactante e forte, “Dentre todas as filhas, aquela escolheu ser feliz.”. É comum entre mulheres como eu, negras e pobres, que chegue o momento em que enfrentamos o sentimento conflituoso de recusar o destino e a vida que a sociedade insiste em nos entregar. O conflito vem porque, normalmente, romper com o que nos é imposto todos os dias também é romper com o que foi feito por quem veio antes da gente, nossas mães e avós. No conto, a personagem se recusa a aprender a costurar e bordar, atividade desempenhada pela mãe para sustentar a família, não porque não enxergasse valor nesse esforço – a mãe constantemente chorava por exercer uma atividade que não tirava a família da miséria – , mas por enxergar nas agulhas e panos uma prisão da qual esta não conseguia se libertar para viver a própria vida. O que encontramos em Mulher feita são mulheres que em diferentes momentos da existência, da infância até a velhice, se apresentam em meio a recordações e esquecimentos, ao caminharem para a percepção do que é ser mulher, tomando ou não consciência de que esse processo de formação é atravessado também por transformações e escolhas.