Foto: Sylvia Damian

Madame K - Em seu livro mais recente, ASMA, Vashti atravessa séculos e regimes de opressão. Como você construiu a voz épica dessa protagonista sem perder a tensão lírica e o corpo vivo do poema?

Adelaide Ivánova - Essa construção é uma estrada de mão de dupla, sabe? De um lado, tem a escolha de um tema, que me toca enquanto pessoa, que faz eu querer endoidar enquanto escrevo. Mas do outro lado, tem o rigor jornalístico (eu venho do jornalismo), ferramenta que me ajuda bastante a criar um distanciamento do tema e, consequentemente, escrever com mais foco. Acho que esse distanciamento ajuda a não perder isso que tu chamasse de “tensão lírica” de vista. Como diria Nina Rizzi, poesia também é forma, não é só vibes, e precisamos cuidar de ambos, quando estamos escrevendo.

MK - O livro venceu a APCA e entrou nas listas do Jabuti e do Oceanos. O que esse circuito de prêmios muda (ou não) no modo como você imagina a circulação da poesia?

AI - Eu sou muito, muito grata pelos prêmios que recebi, que foram o Prêmio Rio de Literatura para O Martelo e o APCA por ASMA. Sou muito grata porque, numa sociedade desigual como a nossa, receber ou não um prêmio ajuda (mas não garante!) a longevidade do livro. No entanto, é importante destacar que prêmios são o sintoma de uma sociedade desigual, e que muitas vezes refletem (e retroalimentam) a desigualdade típica do sistema de produção capitalista.

Além disso, é importante também lembrar que os prêmios não são iguais entre si. Pela própria forma como o Brasil funciona (ou desfunciona), ganhar um Jabuti da vida tem muito mais peso do que ganhar um APCA ou outros prêmios ainda “menores” – mesmo que estes tenham processo de seleção mais transparentes e/ou ofereçam contrapartidas melhores para os vencedores. Para citar apenas um exemplo: tanto financeira, quanto editorialmente, é muito melhor ganhar o prêmio CEPE mas, como o CEPE é uma premiação nordestina, inserido numa sociedade extremamente xenofóbica, ele confere ao autor bem menos prestígio do que o Jabuti. Nesse contexto, ganhar o Jabuti acaba sendo “melhor”, ainda que a remuneração seja bem menor (a não ser que você ganhe livro do ano) e ainda que o Jabuti tenha critérios seletivos, atualmente, que não têm nada a ver com o mérito da obra.

(…) várias práticas poéticas inspiram meu cotidiano na militância (na verdade isso é a mística, que eu aprendi com o MST Pernambuco) e várias ferramentas militantes me ajudam na hora de escrever poesia.

MK - Há quem leia Asma como um projeto decolonial em poesia. Você reconhece esse enquadramento? Que referências teóricas e afetivas sustentam essa arquitetura?

IV - Eu não me oponho a esta leitura e fico feliz que várias pessoas o tenham lido dessa forma. No entanto, como autora comunista e marxista, gostaria de pensar que o livro consegue refletir minhas leituras, que se aproximam mais da tradição anticolonial (ou seja, textos inseridos em ou baseados nas lutas populares contra o capitalismo, de viés mais radical) do que decolonial (que tem um viés mais liberal).

MK – De O martelo a Asma, que continuidades e torções você enxerga no tratamento da violência, do desejo e da agência feminina?

IV - A principal diferença entre um trabalho e outro é que a protagonista do Martelo é uma voz mais solitária, enquanto a protagonista de ASMA está sempre acompanhada de ou fortalecendo um bando. Enquanto a protagonista do Martelo enfrenta o machismo sozinha, Vashti já está em outra fase de politização, sendo ela a sujeita coletiva, em várias passagens da sua vida organizada politicamente.

MK - Você costuma transitar entre países, línguas e formatos (poesia, foto, performance, tradução). Como esses deslocamentos reconfiguram ritmo, montagem e imagem nos seus livros?

IV - Acho que os deslocamentos geográficos se misturam à escrita porque são aspectos da minha vida. Já os deslocamentos no que diz respeito às mídias com as quais trabalho tem a ver puramente com quão apropriada é uma mídia, um suporte, para trabalhar determinado tema.

Cada formato me permite contar um certo tipo de história que seria impossível de contar em outro. Por isso que tenho dificuldade em dizer que sou poeta, sou fotógrafa sou isso, sou aquilo, porque eu escolho a mídia levando em consideração não a mídia em si, mas a história que preciso contar.

MK - Em entrevistas e leituras, você cita pesquisa e arquivo como parte do processo. Como a pesquisa entrou em Asma e que materiais foram decisivos?

IV - A pesquisa se fez necessária já do início, porque as perguntas que eu tinha não eram de nível existencial, eram de cunho histórico. Eu queria entender a história da minha família, mas a história do proletariado mundial como um todo, e do proletariado das colônias em particular, e do proletariado rural pra ser mais específica, não consta dos livros.

Todos os materiais foram decisivos, e a produção acadêmica feita nas universidades do interior do Nordeste ampliaram minha visão de mundo enormemente. Os governos do PT expandiram os campi pra zona rural e possibilitaram, assim, que uma riqueza ainda maior de Brasis começasse a ser pesquisado (e não somente as metrópoles do litoral).

MK - Seu trabalho fotográfico sobre sobreviventes de violência antecede O martelo. Que ecos visuais e éticos desse projeto reaparecem na escrita de Asma?

IV - Visuais não sei, preciso pensar mais. Mas no quesito ético, reaparece o respeito às práticas jornalistas e do rigor acadêmico, com especial foco e respeito pelas entrevistas e pelos entrevistados. Reaparece também compreensão de que a história que eu conto não é minha, ainda que o ponto de partida seja (no martelo, minha própria experiencia como sobrevivente de violência de gênero e violência judicial, e em ASMA, a história de migração interna da minha família).

MK - Quais foram as conversas editoriais com a Nós na preparação de Asma (estrutura, cortes, capa, paratextos) e como você mede o impacto dessas decisões na leitura?

IV - Eu tentei publicar ASMA por quase dois anos; tive algumas experiências que foram de ruins a horríveis, até chegar no ponto que desisti de publicá-lo. Coloquei o livro na gaveta e entreguei a Deus. Quando Schneider Carpeggiani, que editou ASMA, foi pra Nós e me pediu os originais, eu tive uma sensação bem mista, algo do tipo “se tem alguém que vai entender ASMA, é Schneider” e, por outro lado, “se tem um livro meu que Schneider vai odiar, é ASMA”. Porque, por um lado, ele é meu melhor leitor mas, de outro, ASMA é diferente de tudo o que eu fiz até então.

Eu conheci Schneider em 2004 quando comecei a trabalhar no Jornal do Commercio de Recife. Como ele já era repórter sênior (ou algo assim, não lembro exatamente o termo que descrevia sua função), ele era responsável por pré-editar meus textos, antes que estes fossem enviados para o editor, no final do dia. Depois, ele foi editor do Suplemento Pernambuco, com o qual também colaborei, durante uns 15 anos. Então Schneider edita meus textos há 21 anos e conhece meu método (e meu caos) de cabo a rabo. É muito fácil trabalhar com ele, não porque não haja brigas (e há, muitas!) mas porque ele é um excelente leitor. Ele luta com afinco para que cada texto meu seja o melhor possível.

Na preparação do livro ele convidou Igor Gomes, que também preparou vários textos meus no Suplemento. Nós três somos pernambucanos, os três temos uma relação de amor e ódio com Recife e com suas pessoas (que já foram fonte de muitas dores e muitas delícias pra gente), então foi um processo muito bonito mesmo. E Simone Paulino confiou totalmente na gente, e deixou a gente tomar as decisões que fossem necessárias para que o livro saísse o mais absurdo possível. Sou muito grata a ela e a eles dois.

Para mim, quem dita a escolha da mídia é o tema. Deixei a fotografia porque ela não oferecia mais a possibilidade de discutir os temas que queria. Acredito que ASMA é a última coisa que posso oferecer em poesia, pois os temas que me preocupam atualmente não parecem poder ser resolvidos na linguagem poética.

MK - Você já publicou no Brasil, Portugal, Estados Unidos e Reino Unido, além destes países, O Martelo foi publicado na íntegra na Grécia, na Argentina e na Alemanha. O que mais muda quando o poema atravessa fronteiras — e o que permanece?

IV - Acho que depende muito de muitas coisas. Nestes 10 anos publicando O Martelo por aí, percebi que algumas coisas fazem mais diferença mais que outras. Por exemplo: quão implicada no seu projeto político é a editora? Se a editora compartilha do mesmo horizonte político que eu, algumas conversas e decisões editoriais serão mais fáceis. Mas se ela está me publicando somente para cumprir cota (do tipo “precisamos publicar mulheres” ou “precisamos publicar latinas”), numa representatividade vazia, algumas conversas serão difíceis, pra não dizer impossíveis.

Outra coisa importante: de quais recursos a editora dispõe para remuneração do tradutor? Condições justas para o tradutor geralmente ajudam muito na relação tradutor-autor.

Mais uma coisa: o tradutor tem ciência que o Brasil é mais do que o eixo Rio-SP? Porque eu preciso de um tradutor que não somente respeite meu recifês e meus recifismos, mas que seja capaz de traduzir isso.

Mas isso para falar do martelo né, que é um livro relativamente mais fácil de traduzir e publicar do que ASMA, considerando que ele é menor e politicamente menos explosivo. Vários poemas de ASMA foram traduzidos pro alemão e pro inglês, mas nenhuma editora da Alemanha ou Inglaterra topou publicar, até agora.

MK – Entre os livros mais recentes — 13 nudes, Chifre e ASMA — que caminhos de linguagem te interessam agora (narratividade, persona, sátira, épico, ensaio em verso)?

IV - Eu gosto de ler coisas com as quais aprendo algo sobre o mundo, seja qual forma for. Quanto mais um autor se apega ao formato (“sou poeta, logo escrevo poesia”) mais risco de se expor ao ridículo ele corre. Para mim, quem dita a escolha da mídia é o tema. Deixei a fotografia porque ela não oferecia mais a possibilidade de discutir os temas que queria. Acredito que ASMA é a última coisa que posso oferecer em poesia, pois os temas que me preocupam atualmente não parecem poder ser resolvidos na linguagem poética.

MK – Como você pensa a relação entre performance de leitura e página impressa? Há poemas que “nascem” para o palco e outros para a página?

IV - Acho que sim, mas sobretudo, e já me repetindo, o tema dita o formato!

MK - Que escritoras e pensadoras acompanham a feitura de Asma — e quais faltam nas estantes brasileiras quando discutimos corpo, raça, classe e migração?

IV - A maior influência do livro são as pessoas da vida real, tanto as que trombei por acaso, quanto as que corri atrás pra conviver com. A maioria delas está listada nominalmente nos agradecimentos do livro – gente que me concedeu entrevistas ou apenas espontaneamente engajou em conversar esperando o ônibus, ou dentro do ônibus, ou nas conversinhas de fim de tarde nas calcadas do sertão ou na fila das vacinas da COVID eeeetc.

Tem também um infinito de referências, listadas por capítulos, aqui: https://adelaideivanova.com/asma/bibliografia/

Mas para não te deixar sem uma resposta mais concreta, hoje eu responderia, sem pensar muito, assim: Stella do Patrocínio, Marilene Felinto, Toni Morrison, Patativa do Assaré, Miró da Muribeca, os gregos todos, os cordelistas todos e Silvia Federici.

MK - Você vive na Alemanha desde 2011 e participa de lutas por moradia. Como essa prática política atravessa forma e tema na sua poesia?

IV - Sim, eu sou sindicalizada, filiada em partido e milito no movimento DW & Co. Enteignen! que é tipo o MTST alemão. Então essa coletividade influencia minha escrita porque influencia minha vida.

Kurt Eisner, que foi um revolucionário alemão executado em 1919, tem uma frase que eu adoro, que ele fala que a construção de uma vida socialista é a maior obra de arte que alguém pode fazer. Ele quer dizer que a invenção de uma vida mais solidária, mais comunal e justa, requer imaginação e trabalho criativo. Eu gosto tanto dessa forma de ver o mundo. Você está exercitando sua inventividade, tanto porque precisa definir um horizonte político que oriente a luta, quanto porque precisa ser criativo na invenção de ferramentas para chegar ao seu horizonte político. Assim, várias práticas poéticas inspiram meu cotidiano na militância (na verdade isso é a mística, que eu aprendi com o MST Pernambuco) e várias ferramentas militantes me ajudam na hora de escrever poesia.

MK - Que leitores você encontrou com Asma que não haviam chegado em O martelo — e o que eles te devolveram sobre o livro?

IV - Que pergunta incrível. Nunca tinha pensado nisso e não sei bem te responder ainda. Fico te devendo essa. Mas vou te contar uma coisa bonita, que acho que mais ou menos responde: no lançamento do livro em Campina Grande, um professor de física, do ensino médio, viajou da cidade de Boqueirão até Campina, porque gostou desse texto https://www.sescsp.org.br/editorial/joao-gomes-por-adelaide-ivanova/ que escrevi sobre Joao Gomes. Ele não tinha lido ASMA ainda, mas comprou lá mesmo. Fiquei emocionadíssima e espero que ele goste de Vashti tanto quanto gostou do que escrevi sobre Joao. No fim das contas, ambos os textos fazem parte do mesmo projeto de elevação da excelência nordestina <3

MK - O que vem a seguir: novas traduções, reedições, um próximo livro? Pode adiantar pistas de processo, leituras e obsessões do momento?

IV - Ano que vem marca os dez anos da primeira edição do Martelo e faz pelo menos metade disso faz que ele está esgotado. Então minha ambição é só essa mesmo, poder relançá-lo (mas também não sei se vai rolar) e me retirar um pouco dos corres literários. Eu trabalhava num editora ganhando salário mínimo, mas pedi demissão porque preciso de uma remuneração mais justa, já que não sou herdeira de nada, minha mãe é professora aposentada de história e até hoje vive de aluguel, com meu pai nunca pude contar, eu não tenho curso superior completo etc. O mundo tá aí como tá e, enquanto luto para que ele mude, sei também que ele é cruel com a velhice, e eu não to ficando mais nova, então preciso me preparar minimamente para uma velhice sem aposentadoria e com catástrofes climáticas.

Em outras palavras preciso, como proletária, fazer um pé de meia, algo que a literatura brasileira, tal qual ela é agora, cheia de vícios e gatekeepers sudestinos, não vai poder me oferecer. Se minha sobrevivência enquanto autora depender de eu babar ovo de professor carioca e bajular editor e curador paulista, eu prefiro morrer. Então meu foco em 2026 é encontrar um emprego novo, com salário melhor, fazer um pé de meia e seguir escrevendo, como diria Suassuna, a serviço do meu país e do meu povo, sem nunca ter que beijar mão de ninguém, muito menos de sudestino.