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Mar23

Maria do Rosário Pedreira

A decisão de lavrar a terra tinha sido tomada de um dia para outro, depois de muito remoer sobre o passado e o futuro. Era arriscada, mas algo precisava ser feito. Não esperaria que lhe tomassem os restos e se pôs na linha de frente para reivindicar o que considerava legí­timo. Se não fizesse algo por si, estava fadada a desaparecer como tantas vezes outros desejaram.

Resignada, lançava a manaíba na cova aberta, e fechava, paciente, ignorando tudo mais à sua volta. O homem gesti­culava com os braços, Maria Cabocla falava cada vez mais alto. Então, ele ordenou que ela parasse a irmã, do contrário ele não responderia por si.

[…]

«Luzia, Luzia, pelo amor de Deus, deixe o diabo dessa manaíba aí! Estou vendo a hora de esse homem te matar.»

Luzia parou, levantou o rosto suado e coberto de terra. Ela estava suja porque ele se aproximava arrancando os tocos, e os fragmentos de terra e mato recaíam sobre seu corpo. Agora uma lama grossa feita de barro e suor descia de sua face. Mas ela não guardava nenhuma expressão de desgosto ou desâ­nimo em seu semblante. Ignorou o homem e a ameaça. Olhou para Maria Cabocla com um ar de insubmissa satisfação.

«Não paro, Mariinha.»

Itamar Vieira Junior, Salvar o Fogo, quase quase a chegar!