Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Ontem ouvi uma Deputada democrata dizer num programa de televisão que não havia justificativa para soldados americanos terem urinado sobre corpos de afegãos, algo que ganhou enorme repercussão internacional. Concordo inteiramente com ela. Não tenho dúvidas de que qualquer pessoa com um mínimo de discernimento há de concordar. O que me deixou atônito foi a justificativa que ela deu para que aquilo não fosse aceitável. A primeira parte foi dita assim, literalmente:
– Nós somos os Estados Unidos da América! O maior país do mundo!
Depois disse algo mais ou menos assim:
– Tudo que fazemos é refletido em todo o mundo como um exemplo. Não podemos deixar que as pessoas, especialmente as crianças, pensem que concordamos com isso.
A forma como ela pronunciou a primeira parte da sua defesa pareceu tirada de um episódio de Os Simpsons. Melhor: consigo imaginar perfeitamente Ross, da série Friends, todo empolgado, dizendo aquilo com a sua entonação peculiar, sendo seguido pela laugh track (a bendita risadinha da plateia).
Só que no programa (Real Time, com Bill Maher, que é repleto de tiradas de humor, frise-se), ninguém riu.
Esse sentimento de superioridade, de exacerbada confiança naquilo que se é não é familiar a nós, brasileiros. Eu, pelo menos, não consigo imaginar, por exemplo, algum deputado discursando contra a posse do ficha suja Jader Barbalho, no apagar das luzes de 2011, quando a plebe ignara já cantava e festejava a chegada de ano novo. Não consigo pensar em um político, juiz, promotor ou jornalista dizendo (e sendo levado a sério):
– Isso é um absurdo! Não se pode permitir tal vilania!
– Por que, perguntaria alguém, emocionado.
– Nos somos a República Federativa do Brasil! O maior país da América do Sul. A terra onde crescem palmeiras e cantam os sabiás! Não podemos dar esse mau exemplo para nossas crianças!
O que se viu foi o filho de Barbalho fazendo caretas para a imprensa. Uma metáfora bastante óbvia para o que seu pai estaria de fato pensando enquanto concedia entrevista coletiva após a posse.
Estou em Washington há nove dias e tenho tentado fugir do óbvio: comparar. Nos primeiros momentos corre-se o risco do deslumbramento, o que torna as coisas difusas, e a realidade menos palpável.
Vim do Brasil, todavia, com uma questão martelando na minha cabeça:
O que faz desse país a maior potência mundial?
Tudo bem que já não é mais tão potência assim, mas há muito caminho a ser percorrido até que os EUA sejam superados, e até dez anos atrás eles eram incontestáveis. A minha curiosidade não diz respeito tanto à questão histórica, econômica, política. Meu interesse não é macro, é micro. Um país é feito de pessoas, de um povo. Como se comporta e pensa esse povo que há um bom tempo tem ditado o ritmo do mundo?
Nós somos os Estados Unidos da América. O maior país do mundo.
Isso significa alguma coisa.
Em uma das aulas, um professor americano falava sobre o papel do Governo, mas começou a detalhar como algumas coisas funcionam por aqui. Ele citou, dentre outras coisas, que deve haver 700 milhões de armas nas mãos de civis nos Estados Unidos. E que para comprar uma arma, você só precisa ir a uma loja, apresentar um documento e pagar. Simples assim (desde que você não seja um criminoso procurado, um terrorista ou um doente mental). O direito de possuir uma arma está garantido na Constituição americana, na famosa Bill of Rights. O professor deu um pequeno passo além. Não se trata só de possuir armas, disse ele. Nos inícios, há mais de duzentos anos, era importante que cada cidadão tivesse uma arma, porque isso diminuiria muito a chance de que houvesse um governo ditatorial nos Estados Unidos, já que em caso de ditadura o povo teria um potencial contingente armado muito maior do que qualquer exército que o governo pudesse arregimentar. Faz sentido? Não conheço a história americana para saber se não se trata de apenas uma inferência do professor, mas é fato que os EUA jamais sofreram nas mãos de um ditador.
Um tema polêmico abordado pelo professor nessa mesma aula: Ajuda estrangeira, o dinheiro que o Governo dos EUA tira do seu gordo orçamento para ajudar outros países. Segundo ele, o povo em geral, mal informado, supervaloriza essa ajuda estrangeira, imaginando que alcance 30% a 40% do orçamento total dos EUA. De fato, a ajuda estrangeira no último ano girou em torno de 40 bilhões, o equivalente a mais ou menos 1% do orçamento. Há um detalhe, contudo, ressaltou o professor. Desses 40 bilhões, quase 16 foram para Egito e Israel, e foram de maneira condicionada: com o dinheiro, esses países teriam que comprar armamentos/equipamentos militares… de empresas dos EUA!
Há um ditado americano que diz: There ain’t no such thing as a free lunch.
Algo como: Não existe almoço grátis.
Por falar em almoço, aqui é quase impossível comer num prato de verdade ou com talheres de verdade (a não ser que você vá a algum restaurante caro, que é caro mesmo!). No shopping ou nos restaurantes do dia-a-dia os pratos são de isopor e os talheres do plástico mais vagabundo possível. A regra é: nada se reaproveita. Sai mais barato comprar tudo descartável do que lavar pratos e talheres.
Curioso mesmo foi um diálogo que aconteceu no último sábado. A turma toda (dez brasileiros e cinco mexicanos) foi convidada para a casa do professor responsável pelo programa. É uma daquelas casas típicas da classe média-alta americana, num subúrbio (mas o subúrbio dos ricos, claro), branca, com um grande jardim na frente, várias portas e janelas, uma escada bem no meio da sala de entrada, mais larga que comprida. Eu estava conversando com dois colegas brasileiros, uma funcionária do instituto e um professor da George Washington University. Esses dois últimos moram há bastante tempo relativamente próximos ao local onde estávamos.
Eu perguntava onde estávamos, se ainda era Arlington, Virgínia, onde fica o hotel onde estamos todos hospedados, ou se já era outro município. Começou uma longa e confusa explicação acerca dos conceitos de cidade, condado e estado, e, para tentar esclarecer a história, perguntei: Aqui tem prefeito ou não? Arlington tem prefeito ou não?
Aí vi como a relação deles com o estado em geral é diferente do Brasil: eles não souberam responder. Não é que não soubessem o nome! É que não sabiam se havia um prefeito ou não. Não se tratava de gente desligada da política, mas de um professor de direito e de uma funcionária de um departamento da universidade voltado para questões governamentais. E que moram lá!
No dia seguinte conversei com um professor brasileiro que estudou na Universidade de Chicago no final dos anos sessenta e que vive entre o Brasil e os Estados Unidos. É um cientista político que conhece bem ambas as realidades. Perguntei como ele interpretava aquele caso. Ele disse: você olhou bem as ruas? Provavelmente não porque era noite, mas lhe asseguro: estavam limpas. O lixo foi recolhido, a água fluía pelos canos, a energia chegava bem, os telefones funcionavam… portanto, para eles, não importa se há um prefeito, um administrador, um encarregado. O importante é que as coisas estejam no lugar.
Essa é uma realidade impensável no Brasil. Por mais simples que seja uma pessoa, ela sabe quem é o prefeito de sua cidade, sabe muito bem se votou nele ou não (com raríssimas exceções). O prefeito é a principal figura de quase qualquer cidade brasileira, e aqui eles nem sabiam se havia o cargo de prefeito, quanto mais quem o ocupava…
Isso tudo, naturalmente, ainda não me dá respostas para meu questionamento, mas começo a juntar informações. Ainda falta muito até o final de abril, então há tempo para lançar mais ideias por aqui.
