A Saga de Selma Lagerlöf | Cristina Carvalho

Autora de diversos géneros literários, Cristina Carvalho tem dedicado ao romance biográfico um carinho especial. Sem nunca se repetir, recria-se a cada personagem que retrata, estabelecendo com os biografados (sempre pessoas do seu fascínio) uma relação intensa, direta e de inegável paixão, um morar nessa vontade do outro que tão bem sabe desenhar por palavras. Ao leitor, resta perder-se no encanto destas linhas que tantas vezes se interrompem para dar azo a um diálogo ou ao registo leve, típico das reportagens.

Interpelada em registo direto pela biografada, a autora revisita, nos dias de hoje, uma força que o passado não extinguiu. Um fio de luz que fez soltar a magia dos elfos e das fadas que habitam no lago da quinta ou na impenetrável floresta, e que a autora, emocionada, ainda encontra ressoando nas paredes de Mårbacka. Desses lugares de encanto, sobressai o sótão, não enquanto lugar esconso, mas como local pouco visitado pelos adultos, onde as criaturas fantásticas permanecem sem incómodos; de dia, as que pertencem à luz e de noite, as que pertencem às trevas. Há passos, há correrias, há um certo remexer, são os sobressaltos que se desprendem deste livro e não podia deixar de ser assim quando a biografada é Selma Lagerlöf, figura maior da literatura, primeira mulher a ganhar o Nobel, a primeira a ser aceite na academia do seu país e ativista dos direitos da mulher. Tantas vezes acusada de uma escrita simples, numa ficção fantástica que se confrontava com o realismo em vigor na literatura da época, e encarada como uma escritora provinciana, a escrever sobre as suas raízes nada urbanas, aspirando ao sublime. Nem eu era inofensiva nem os meus livros eram historietas, reclama Selma Lagerlöf na voz de Cristina Carvalho. No seu tempo, não foi consensual, num mundo de escritores predominantemente masculinos, teria de lutar para ser reconhecida, apesar do sucesso dos seus livros junto do público. A sua vida afetiva é abordada com sensibilidade e igual frontalidade. Uma carta permite à autora navegar nessas águas com desassombro e sem nunca ferir o recato com que, à época, Selma Lagerlöf viveu a sua relação a três e no feminino.

Afastando-se de uma estrutura linear ou cronológica, a autora opta por uma organização quase temática e não se estranha que termine o livro com uma visita guiada à casa de Mårbacka. As suas divisões são um roteiro de vivências, de momentos felizes, onde tudo começou e se resumiu. O lado iniciático e sacrificial, onde Selma encontrou muito mais do que abrigo e calor. Tal como agora, na escrita de Cristina Carvalho, encontra um registo capaz de roubar à emoção o essencial.

Tudo é onírico, fantasmagórico e misterioso, lobos e ursos, homens e mulheres. A festa da vida, a surpresa da morte.

Publicado na Justiça com A              citação