(...) «Ao cabo de um mês, a barreira foi saibrada e plantada vinha. Os Cletos passaram, então, para casa do Andrade, onde havia lenhas a cortar e grandes cepos de carvalho a desfazer em cavacos. Porém, se o Cleto velho era bom trabalhador, amargando quanto custava, o filho despedia duas machadadas e punha-se boquiaberto a ver para onde as nuvens corriam.
Além disso, era fidalgo nos comeres depois que voltara do regimento. Vinha, porém, à sombra do pai porque parecia mal rogar um sem rogar outro, e porque o pai, só, se negava. Sem esta circunstância, era bisca que os patrões desejariam ver por um óculo. Além de o não estimarem por calaceiro, mormente se cheirasse moça ao lado, era rebelde, não deixando passar sem retruque a mais pequena observação. E iam-lhe impondo lazareto.
  -- Olha, meu rico -- dizia-lhe D. Doroteia, que era franca e boa mulher -- quem é pobre humilha-se.
  -- Mas eu não hei-de deixar que me comam o caldo na cabeça! -- respondia ele, desesperado.
  -- Mas curva-te, homem, curva-te a quem é mais é mais que tu!
Uma vez que a senhora Maria Andrade não serviu vinho à ceia, levantou grande celeuma:
  -- Tratam-nos como negros! Julgam que os pobres são de ferro!
E, diante de quem o quis ouvir, acrescentou, descarado:
  -- Tenho de ir ao vendeiro para me dar meio quartilho.
Isto foi uma ofensa para a senhora Mariquinhas, em casa de quem os trabalhadores eram tratados como bispos.
  -- Uma desfeita destas -- exclamava em voz patética -- só porque uma vez não apareceu a botelha na mesa!...
Os Cletos, todavia, continuaram ao serviço do Andrade, porque não havia como o velhote para arrancar raízes de carvalho, e os rapazes, sãos e de alma, desertavam para os Brasis. Mas a senhora Maria Andrade tinha declarado:
 -- Esta escândula, cem anos que eu viva, cá me fica!
E, cheia de ódio, ia à boca pequena denegrindo os Cletos, sobretudo o Zé, vicioso e execrado:
  -- Aquele lascarinho, quando não tiver o vintém para cigarros, rouba.» ...
                                                                                                        (continua)

Lascarinho doidivanas, vadio, trocista, desinquieto, grulha, travesso.

lazareto

n substantivo masculino 

1 m.q. leprosário

2 estabelecimento para controle sanitário, onde são postas de quarentena as pessoas que, chegadas a um porto ou aeroporto, podem ser portadoras de moléstias contagiosas

3 Rubrica: termo de marinha.

prédio em lugar ermo ou navio fundeado onde se mantinham em quarentena passageiros e tripulantes de navio sem cadernetas sanitárias que atestassem condição de bom estado higiênico

 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"