(Imagem de capa: Cacilda Becker, em imagem do Arquivo Nacional, no espetáculo “Em Moeda Corrente do País”)
Bruno Pernambuco
Por sua natureza, o tempo, se moldando dentro da memória, cabe dentro de tantas identidades diferentes, é descrito, de formas que nada têm em comum a não ser a sua natureza fugidia, por tantos diferentes autores. Pode ser, à maneira de Faulkner, “não o tempo, mas algo como a inteligência conjunta de todos indivíduos que estão vivos em um certo momento” — essa era uma precisão que a força, e a emoção, de Cacilda trazia em cada interpretação. A sua permanência pode ser simplesmente aquele sentimento não dito que é impossível de ser esquecido, como uma vez disse Tarkovski, também aniversariante da semana que acaba de se passar, frase essa que evoca uma maestria sutil, um conhecimento mais parco, e destilado mais lentamente, dos dias. Esse tempo, ruminante ao mesmo tempo que expansivo, amigável, encarando diretamente o público, projeta aparições fantasmagóricas, expõe-se e esconde, mas às vezes se mostra numa face quase que excessivamente verdadeira — numa certeza, numa confiança de mestre, numa ternura, num riso.
Cacilda Becker e Maria Clara Machado foram duas fotografias distintas, forçadas a envelhecer em destinos diferentes, quase opostas, de tão próximas, intérpretes de uma mesma passagem, com autorias diferentes, absolutamente originais e próprias. Não há elogio que não caiba a qualquer uma delas, exceto por querer aproximá-las, por não respeitar cada metiê em sua completude e individualidade. Da mesma forma não há qualquer elogio individual que lhes faça justiça, a não ser por essa lembrança presente, por esse estudo tateante, que apreende as rimas que foram propostas, a inspiração que não é um retrato estático, permanentemente estampado na memória e permanentemente preto-e-branco, mas aquilo que não necessita estar o tempo todo voltado para a sua referência; que sabe caminhar de costas, que tem a confiança de que a admiração e o amor verdadeiros — por alguém, pela sua obra, pela sua técnica, ou pelo que foi enxergado num detalhe da sua ação — acontecem já no momento que passa sem deixar que tudo pudesse ser da forma que era antes. Esse conhecimento que tão facilmente se esquece das mulheres.
Por isso, para falar de dois centenários próximos, quase univitelinos, dentro do esquema dos dias, o personagem lido deve ser o próprio tempo. Pois celebrar um centenário nada mais é que celebrar a ele, celebrar as formas de domá-lo, é comemorar o alívio, e também comemorar a memória — de certa forma, afinal, uma lembrança verdadeira de uma pessoa acontece sem memória, sem tempo, é presente, persistentemente, de certa forma. É algo que está para fora dessa lógica, e que não nega nada, pois está também além da lógica da negação. É uma presença única, à sua maneira, e a comemoração de um centenário em suas datas nada mais é que a exaltação de uma ideia, de um retrato que, quase, teve de ser inventado para falsear essa presença entre os vivos.
Cem anos podem alterar um século ou um segundo — e às vezes essas duas formas acontecem simultaneamente, ou às vezes acontece algo que não se encaixa exatamente em nenhuma das duas, e as suas gradações não sei necessariamente mais perceptíveis uma que a outra. Não me interessa dizer nada a não ser ver o tempo, exposto, apresentado. Há certas coisas que só podem ser ditas quando se está nu de tudo. Talvez, quando se está mais próximo da morte, mesmo que seja só em uma visita, em uma passagem curta. É a memória mais sincera aquela que escapa um até mesmo ao jugo do seu próprio nome, de sua classificação, de fato não se ocupa, em geral, com compromissos definitivos. Aquilo que pode ser chamado simplesmente de inspiração, ou de sentimento, mas que também é face da comédia, e também é insanidade, e também é uma emoção calma, introspectiva, que pede às vezes um diálogo com a própria lembrança, não tem essa pretensão. E a lembrança de um centenário, distante da forma que é, a mim, ao menos, não desperta nada, nada, nada, nada absolutamente, exceto isso tudo.
(No dia 6 de abril de 2021 é comemorado o centenário da atriz e ícone Cacilda Becker, intérprete única, que encenou personagens de diferentes épocas, formas e autores . No dia três de abril, ocorreu a comemoração de cem anos da dramaturga, diretora e mestra Maria Clara Machado, fundadora da escola de teatro O Tablado, no Rio de Janeiro)