01
Jul21
Maria do Rosário Pedreira
Se entrarem por estes dias numa livraria, vê-lo-ão de certeza. É que a capa, linda de morrer, chama inequivocamente a atenção. O livro tem por título O Homem do Casaco Vermelho, e esse casaco vermelho, que se parece com um roupão com borlas caindo do cinto, deixa ver um chinelo sofisticado e colorido que pertence ao doutor Pozzi, cujo rosto só conheceremos no interior do livro e pertence a um dos mais belos homens do seu tempo. Médico italiano tornado francês, culto, rico e que contribuiu enormemente para o progresso de alguns processos cirúrgicos, sobretudo na área da ginecologia, salvando muitas vidas, esta figura (a par do conde Montesquiou com quem viajou para Londres) é o núcleo do novíssimo livro de Julian Barnes, autor que se interessou por ele a partir do momento em que viu esse quadro maravilhoso em que veste o casaco vermelho. E, como amante da França, o escritor britânico toma Pozzi como ponto de partida para nos falar da Belle Époque e dos seus protagonistas (no jornalismo, nas artes, nos duelos, na maledicência...) que, de resto, vão aparecendo retratados ao longo do livro em pequenos «cromos» que eram oferecidos com uns chocolates, como cá em Portugal acontecia com os rebuçados já não sei de que marca. A obra, que não é de ficção nem fácil (é preciso conhecer muitos daqueles tipos), é mais uma homenagem à adorada França do autor, sobretudo porque, com o seu sentido de humor habitual, Barnes a compara com a sua ilha na mesma época, e lá a «époque» não é obviamente tão «belle»... Irreverente, informado, surpreendente, é o livro que estou a acabar de ler.