Um fiapo de vida atravessou a rua numa tarde de sábado. Não cabia dentro de uma meia aquele serzinho de pézinhos felpudos. Criança que respira rápido. Sua vida começa quando abre os olhos em um canteiro cercado de perigos, carros, cães e homens. Que mão levou aquela vidinha habitar o olho da rua? Uma aventura vertiginosa poderia ter lhe custado a vida. Mas ele atravessou meu caminho antes da sessão de O Menino e a Garça.

Pequeno como um passarinho recém saído da casca. Um focinho do tamanho de um feijão. De dentro daquela caixa de papelão, não mia, sussurra na língua felina um pedido de socorro. Um jeito manso de se anunciar como um toco de existência. Vitória coberta de pelinhos brancos e tigradinhos. Olhos que lembram Elizabeth Taylor, de tão azuis. Chama-se Toquinho. Toquinho de gente, toquinho de gato. Criaturinha miúda e miante, por pouco não é pega pela tempestade de vento que espanta até os pombos. 

Aos poucos, o gato toma forma, como se nascesse de novo. Suas garrinhas afiam, o silêncio imposto vira sussurro, depois miado, queixa. Graça. Toquinho ri e abana o rabo, a cauda do fiapinho de ontem se eriça. Uma noite bem dormida faz com que o serzinho pare em pé. Forte. A vida sorri para toquinho, que retribui pulando como coelho. Um gato vai descobrir o mundo. Mas, antes, ele mia, brinca e se esconde depois dos mordiscos em pés humanos. 

Toquinho passou por aqui a semana até seguir para seu lar definitivo. Em sete dias, dobrou de tamanho, tomou coragem e alugou um espacinho vitalício no meu coração. A resistência, a fome de vida. O miado trêmulo e o jeito desengonçado de se impor contra a gravidade. Uns pulos e capotes. Ele mostrava os dentes enquanto ensaiava um rosnado. Agarra nas canelas e inspira, como fizeram um dia seus ancestrais, antes de perseguir o bote… em uma meia. 

Derrapa no próprio pé e se aninha à mãe – o humano que o alimenta. As táticas de sobrevivência começam pela fofura. E é muito mais fácil quando se tem olhos azuis.  Toquinho é um gato clássico, com todas as qualidades de caçador, leva consigo muita ternura, inocência – até para um caçador de contos de fadas, dos que têm olhos azuis e um coração maior que o próprio corpo.