Muitas vezes recebo textos para apreciação que não têm voz, iguais a recados que colássemos na porta a pedir ao carteiro que deixasse a nossa correspondência com a porteira. O que um editor procura acima de tudo é uma voz, um estilo próprio, algo que identifique e distinga um autor dos outros e dos não-autores (pegando na etimologia, os que não acrescentam nada ao que já existe). Uma das formas de entender o que é esse estilo diferenciador é ler um notável livrinho de Raymond Queneau chamado Exercícios de Estilo que descobri, creio, ainda na faculdade e no qual a mesmíssima situação é abordada de uma profusão de pontos de vista: desde o texto publicitário ao tom de surpresa, da descrição antiquada à narração hesitante, numa abordagem botânica ou gastronómica, num texto telegráfico ou sob a forma de ode ou soneto, o homem que o narrador encontra no autocarro que tem pescoço comprido e chapéu na cabeça aparecerá 99 vezes e nunca será o mesmo por causa dos variadíssimos estilos. Um excelente exercício que ajuda a compreender que o «como» é o que interessa mais em literatura. Ou seja, uma história maravilhosa pode ser deitada a perder se não a soubermos contar. Uma história banal pode ser salva por um poderoso estilo.