A interação entre uma mulher cor de cobre e um homem solitário num quarto decorado com uma mesinha, uma penteadeira e uma cadeira. Eles acreditam estar em um sonho, um sonho idílico em que se apaixonaram. Olhos de Cão Azul fazem referência aos olhos da mulher, de um cinzento brilhante. É também um código. O código que permitirá os amantes do sonho se encontrarem despertos.
Todo o conto se passa neste quarto, no qual os dois amantes se desejam sem se tocar. As palavras escolhidas a dedo, o ambiente bruxuleante de um quarto à meia luz, uma mulher de cobre vermelho e olhos de cão azul, um homem que a deseja, a cena descrita criou vida em minha imaginação.
Gabriel García Márquez é, para mim, um dos melhores quando se trata de descrever cenas. Ele possui uma sensibilidade incomum, e objetos inanimados como a chama de uma vela ou uma mesinha ganham vida e importância narrativa. Claro, não estou falando dos móveis nas casas das princesas da Disney, mas do significado que ele dá a uma mão apoiando-se nesta mesa, ou nos pés da cadeira, quase todos no ar.
O sentido mais aguçado neste sonho é a visão. O corpo da mulher que brilha à luz da vela, as sombras que se projetam em seu rosto quando uma mão passa por cima da chama. O homem está fascinado por aquela mulher etérea, a mulher desespera-se por suas lembranças do que considera seu mundo desperto. Já o homem, quando acordado, esquece.
“Ojos de Perro Azul” é um dos contos do livro homônimo, escritos entre 1947 e 1955. O livro retrata o início da carreira de Gabo. Sua temática principal é a morte, e este conto bem pode ser sobre um encontro paranormal. Gabriel García Márquez é um expoente do realismo fantástico, e este conto tem clara referência neste estilo. Ademais, a descrição da cena, da conversa, das trocas de olhares é sublime, ao tempo que impede o leitor de discernir o que é real e o que é sonho, ou se há mesmo um real e um sonho. A elegância com que descreve os personagens, o ambiente e a conversa envolvem o leitor, que lê mais que um conto, lê uma imagem, fugaz, fugidia como um sonho, mas penetrante e inesquecível.
Ao leitor que se aventurar em “Ojos de Perro Azul”, sugiro que deem uma olhada na versão original, em espanhol. A cadência das palavras tem uma natureza quase poética, algo que a tradução que li, apesar de ótima, falha em observar. Para quem não conhece Gabo, considero ler “Ojos de Perro Azul” uma excelente iniciação à sua obra e seu estilo.
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Uma menina com histórias pra contar...