Fotografia da minha autoria

As obras do Afonso Cruz são sempre um pedacinho de luz - ou não fosse ele um dos meus autores favoritos. Atendendo a que já li quase todas as suas obras de outros géneros, tenho-me dedicado a explorar as que se enquadram mais num público infanto-juvenil. E nunca fico menos fascinada por isso: 1) porque acho que ainda se desvaloriza muito o género, quando não é assim tão simples escrever para estas faixas etárias e quando têm tantas mensagens impactantes; 2) porque sou sempre surpreendida pela versatilidade do autor. Portanto, acrescentei outro livro à coleção.

as considerações de um misantropo

Assim, Mas Sem Ser Assim foca-se nas considerações de um misantropo. Estimulado pelo pai para sair de casa e comunicar com as pessoas, o nosso protagonista segue essa sugestão, até porque o pai «costuma dar bons conselhos e usa barba», e decide começar pelos vizinhos, cujas particularidades ficamos a conhecer pelo seu olhar.

A narrativa lê-se num sopro, no entanto, mostra-nos o poder que a comunicação tem na maneira como nos (des)encontramos com aqueles que nos rodeiam; mostra-nos como é muito fácil criarmos imagens que nem sempre são fidedignas e que poderiam ser desmistificadas se, de facto, conversássemos, se perdêssemos um bocadinho mais de tempo a olhar para o outro, em vez de estarmos apenas focados na nossa bolha.

É interessante como cabem tantas pessoas distintas no mesmo lugar (neste caso, um prédio) e como, dentro dessas diferenças, todas elas passam por fragilidades - também elas desiguais. Ou será que não são assim tão diferentes? Há coisas que nos acontecem, mas não porque o quiséssemos, e temos de as gerir. Talvez fosse melhor se não tivéssemos de o fazer sozinhos, talvez fosse melhor se olhássemos para o lado e conseguíssemos perceber que existem histórias que se repetem e que existem dores similares. Na realidade, por maiores que sejam os nossos problemas, e por mais que esta imagem não traga qualquer conforto, não somos os únicos a passar por eles.

«A minha inspiração não gosta de ter pessoas à volta. Quando alguém chega, ela desaparece»

Para além da reflexão anterior, achei curiosa a ideia de transformar: não só objetos, mas também palavras, porque podemos obter novos termos a partir das mesmas letras. Acho que isto traz esperança, porque temos a possibilidade de renascer. Nem sempre de um modo tão simples, mas, por vezes, basta mesmo mudar algo de lugar.

Assim, Mas Sem Ser Assim, com ilustrações incríveis, mostra-nos que nem tudo é como aparenta ser e que precisamos de aprender a observar para entender essas camadas.

🎧 Música para acompanhar: Passarinhos, S. Pedro

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