VVAA (coord. Paulo da Costa Domingos & etc Uma Editora no Subterrâneo Letra Livre
40 ANOS DE ‘LIVRINHOS‘
Há efemérides livrescas que se assinalam com o ruído de um bombo de festa e outras que se celebram à imagem daquilo que se festeja, pessoa ou entidade, deixando uma marca mais duradoura. O lançamento de & etc, Uma Editora no Subterrâneo, edição da Letra Livre coordenada por Paulo da Costa Domingos, foi assim, com muita gente a não querer deixar de estar no bar do teatro A Barraca, ouvindo Vitor Silva Tavares (VST) e os seus cúmplices, e depois com pouca estridência a anunciar a chegada do volume às livrarias. Outra coisa não seria de esperar de um livro como este, que já se sabia essencial ainda antes de existir materialmente, e que ninguém contaria ver em campanhas, promoções especiais ou marketings de estação. Está lá, nas livrarias, e quem não quiser perdê-lo, é melhor procurar uma e abastecer-se.
Com o formato a reproduzir a estrutura do quadrado inscrito no rectângulo que define os livros da & etc, o volume que reúne autores, colaboradores (ou cúmplices, como gosta de lhes chamar o editor) e leitores da editora de VST assinala os 40 anos desta casa. Fisicamente, a & etc é uma cave já lendária situada na Rua da Emenda, perto de alguns cafés de bairro e das poucas livrarias e alfarrabistas que o suposto glamour do novo Chiado de rendas altas e comércio de luxo ainda não destruiu. De grafismo exímio e construção onde se nota o cuidado de um ourives, o miolo inclui palavras do próprio VST, acompanhadas de textos assinados por quem tem ajudado a fazer os livrinhos da & etc, por quem os tem como farol e espaço de uma certa reserva protegida e por quem os tem lido com a devoção que a editora soube criar no grupo dos seus seguidores atentos. Aqui cabem textos como os de Paulo da Costa Domingos, presença assídua nos bastidores da & etc e, pontualmente, na capa dos livros, Manuel de Freitas ou Rocha de Sousa, autores da casa, Luís Henriques, um dos ilustradores frequentes, Cláudia Clemente, autora de um documentário sobre a editora, ou Isaque Ferreira, leitor dedicado e coleccionador meticuloso de palavras que sejam poesia.
A estes e outros textos juntam-se matérias diversas, essenciais para fazer deste livro um marco na história da edição portuguesa. É o caso da entrevista que Alexandra Lucas Coelho fez a VST, aqui numa versão mais extensa do que a que saiu no Público, uma peça que ajuda a fixar a história da editora; das cartas de Luiz Pacheco, com a verve que o caracterizava a marcar o ritmo de desabafos, recados e contribuições escritas para o & etc, suplemento do Jornal do Fundão que esteve na origem da editora; das capas de todos os livros da editora e das muitas imagens de esboços, planos que originaram livros, folhas censuradas com o lápis azul do fascismo, autos de apreensão de um livro como O Bispo de Beja, de Homem-Pessoa, apreendido por um governo que já devia ser democrático, porque Abril já lá ia, para além das fotografias a documentarem a vida da editora; do catálogo completo a servir de guia para o que já se conhece e para o que se perdeu, porque esta é uma editora de tiragem única. Sem brindes nem dourados, & etc. Uma Editora no Subterrâneo é uma preciosidade bibliográfica a pedir manuseio frequente e deleite constante, antes que esgote, antes que já não haja editoras que façam livros como quem faz livros e os queiram vender como quem conhece os seus leitores.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Blimunda, Dezembro 2013)
