Em um mundo fantástico, muito parecido com a Eurásia medieval, a estabilidade de um reino está em risco. Jon Arryn, a Mão do rei, morre, e Robert, que há poucos anos conquistou seu trono numa guerra cujas consequências ainda se fazem sentir, fica sem seu braço direito. Para substituí-lo, o rei resolve chamar seu irmão-em-armas, Eddard Stark. Esta decisão, aliada a tantas outras, mudará Westeros. Este é apenas o início de uma saga que conta, por enquanto, com cinco livros, numa média de mil páginas por livro.
A história é contada em terceira pessoa, mas através de pontos de vista múltiplos de alguns de seus personagens. Estes personagens estão próximos o suficiente do poder para conhecer seus bastidores, mas poucos são soberanos. A família Stark figura como um dos principais pontos de vista da saga. Nesta configuração, apesar de a narração ocorrer em terceira pessoa, os acontecimentos são filtrados pelos conhecimentos das personagens, seus preconceitos, suas ideias sobre o mundo.
Cada história tem reviravoltas marcantes, muitas vezes até chocantes. Deve-se entender a série como uma única história, e vários volumes de um mesmo livro. O ritmo dos acontecimentos, diferentemente do que o número de páginas nos leva a crer, é quase frenético, e o peso de cada decisão é sentido ao longo da trama. Mas o foco da saga não são os eventos, são as pessoas.
George R. R. Martin demonstra um extraordinário talento em descrever pessoas. Suas personagens são complexas, suas personalidades únicas. E as pessoas são moldadas por suas decisões, algumas amadurecendo, outras transformando pequenos desvios em verdadeiras síndromes psiquiátricas. Fugindo do maniqueísmo, não há exatamente pessoas boas ou más, e aquela vontade humana treinada pelos filmes de Hollywood de determinar mocinhos e bandidos não sobrevive ao segundo livro. E quando pensamos conhecer suficientemente uma personagem a ponto de definir seu próximo passo, ela o surpreende.
A saga não nos poupa de eventos terríveis e grandes batalhas. A magia e a fantasia são incluídas aos poucos, para alguns personagens é algo natural, para outros lenda. Dragões fazem parte do mundo real, como para nós os dinossauros. Curas milagrosas são aceitas por uns, enquanto a sabedoria dos Meistres é fundamental para outros. A variedade de culturas e crenças e a abordagem sutil do sobrenatural são grandes trunfos da obra.
Algo ainda mais interessante, para uma amante de História como eu, é buscar as referências históricas de pessoas e lugares, de civilizações e acontecimentos. Várias conexões são possíveis, e as discussões entre os leitores pode durar dias. A Song of Ice and Fire despertou a missionária literária em mim, aquela vontade que poucos autores me despertam, de anunciar aos quatro ventos de que a obra existe e merece ser lida, devorada, relida e comentada. E aguardada. A saga deve ter ainda mais dois livros, ainda em processo de criação. Para os fãs brasileiros ainda faltam dois dos volumes já existentes. E com certeza muita coisa ainda está por vir.