Um dos maiores erros que as pessoas cometem é pensar que, entre escritores, pintores e artistas em geral, existem seres repletos de imaginação e saídas criativas para todas as adversidades.
Não é o que acontece.
No lugar onde deveria abundar criatividade, o que mais existe são soluções retrógradas, ideias pasteurizadas e comodismo. Onde deveria fermentar a discordância e uma saudável luta para ver quem tem a ideia mais criativa, ocorre o contrário: é o local onde as pessoas mais têm medo de expor as suas ideias. Um interessante paradoxo.
É como se a criatividade fosse uma praga, onde quem a toca deve ser segregado e, não raro, exterminado pelo bem da coletividade.
(O grupo profissional onde mais vejo pessoas versáteis e inovadoras é o ramo do Direito. Uma pessoa sem criatividade não tem como ser advogado: como negar a materialidade explícita de um delito, como improvisar contra uma confissão espontânea, como ver interpretações diferentes na letra fria e distante de um contrato? Além de imaginação vibrante, a pessoa precisa ser um gênio da retórica para convencer a si mesmo de que o mundo todo está errado e a pessoa que dizem ter agido errado, o seu cliente, é quem estava certo. Mas isto não vem ao caso, não falarei do Direito aqui).
Criatividade não precisa de muito dinheiro. Não precisa de ajuda do Governo. Não precisa de nada – precisa só de alguém disposto a dar asas para a sua liberdade.
Precisa que a pessoa não tenha medo, e talvez esta seja a lição mais difícil de todas: não ter medo da liberdade. Por que ela é um poço profundo, no qual os artistas se jogam e não sabem onde fica o limite, a explosão concreta do chão.
Criar é se abandonar. Por isto que tanta gente tem medo.
Leio na internet, no site do Neil Gaiman (www.neilgaiman.net), que ele se reuniu a outros cinco escritores. Juntos, alugaram um ônibus escolar, pintaram trechos de histórias ou frases criativas ao redor dele e saíram em turnê por uma semana, pelos escolas dos rincões dos Estados Unidos. Sim, vocês leram corretamente, saíram em turnê. Como funciona? Pelo o que entendi, durante a viagem, eles escrevem histórias; acredito que um ajude o outro, em um brainstorm coletivo e agradável. Quando o ônibus pára em uma escola à esmo, eles praticamente invadem o local, vão até a diretora da escola e pedem uma sala onde possam falar com os alunos. As aulas são canceladas, os alunos são levados até este local e os escritores contam as histórias escritas no ônibus. Encerrada a ocasião, eles embarcam no ônibus e continuam a sua jornada até outra cidade, outra escola, outros alunos.
Para quem se interessar em saber mais detalhes, segue o link: http://journal.neilgaiman.com/2012/09/in-which-i-am-unchained.html
E algumas fotos:


Bem, vou abstrair o fato de que o Neil Gaiman é um escritor de renome internacional. Na narrativa feita no site, percebe-se que o negócio atingiu proporções um pouco épicas quando se soube que ele estava contando histórias pelo interior dos Estados Unidos, com as escolas sendo praticamente fechadas de tantas pessoas que acorriam ao local para ver a palestra.
Não é uma ideia cara, nem extremamente genial. Precisa de um grupo de escritores dispostos a se divertir e sair por aí durante uma semana (sem a estúpida necessidade mercantilista de vender livros a qualquer custo, como se fosse um bando de esfomeados, para isto as editoras devem depois fazer um “arrastão de vendas”), precisa de um ônibus alugado, precisa de um motorista. Mais do que tudo, precisa de espírito de aventura. Precisa de boa vontade.
Canso de ver escritores reclamando que o Governo não investe em livros, não investe em educação, não investe em cultura, arrecada impostos e não pensa no contribuinte. Pessoal, existem mais coisas na Terra do que o Governo Brasileiro. Existe a IMAGINAÇÃO. A CRIATIVIDADE.
Duvido muito que, se um bando de escritores se juntasse para falar com quatro ou cinco editoras, não conseguiriam patrocínio para uma empreitada deste tipo. Sinceramente, duvido que os próprios escritores não possam patrocinar a sua própria ideia, a maioria dos que vejo por aí tem plenas condições de se cotizarem, se sacrificarem um pouco em benefício de um pouco de aventura. No entanto, vejo muitos escritores em postura blasé, mais rindo e fazendo troça do público leitor do que pensando em novas estratégias. Por causa do medo do que os outros possam pensar, estamos nos esquecendo da diversão, do ato lúdico que é escrever e contar histórias, encantar com a palavra.
Ficar sentado até o Governo socorrer é esperar quase o impossível. Reclamar é muito cômodo. Fazer reuniões inúteis, esperar respostas que nunca vêm, sonhar com dinheiro fácil vindo das burras governamentais… tudo perda de tempo. Aliás, este pensamento é típico de pessoas sem imaginação e sem capacidade de sonhar, servindo mais ao sistema, alimentando a engrenagem daqueles que nunca questionam, só esperam. E a Arte tem uma função de confronto. Sem comodismo, sem preguiça. Sem medo.
Duvido muito da Arte que sai mastigada dos organismos governamentais através dos seus incentivos fiscais – como pode alguém confrontar se está sendo pago por quem não deseja confrontos?
Não é necessária muita coisa para ser criativo. Anos atrás, minha mãe precisava de dinheiro para construir a Sala Açoriana Antero de Quental, na Escola Isabel de Espanha, em Viamão. Fez rifas de prêmios, fez galetos e bailes temáticos, tudo para arrecadar verba. E conseguiu. Talvez os artistas precisam voltar a fazer galetos, com escritores cozinhando e servindo; talvez precisem voltar a vender rifas de seus originais ou vender material inédito não-aproveitado; talvez necessitem fazer promoções do tipo “auto-leilão”, paguem o valor e terão um dia inteiro com seu escritor favorito. Talvez as pessoas tenham que parar de perder tempo xingando o Governo e sair da sua zona de conforto. Voltar para as trincheiras. Voltar a sonhar.
E, quanto aos que esperam o Governo, lembro o show do Roger Waters. Na canção “Mother”, ele pergunta: “Mother, should I trust government?”. A resposta saiu no telão e vale para todo mundo que tenta sufocar a imaginação, a criatividade, o pensar livre, pois sintetiza toda uma luta contra o conformismo, contra a alienação:
