Estava incontrolável, dominando tudo. A família, até então impassível e tranquila, começou a se desesperar. Gritavam com Neuza, como se a culpa fosse dela, que apenas rezava e rezava, pedindo a Deus por aquela família.
Maria Paula Curto *
Começou num setembro chuvoso qualquer. Na parede do quartinho dos fundos apareceu uma pequena mancha. No clima sempre úmido da cidade litorânea, pontinhos de mofo pelos cantos não eram raridade. Ainda mais naquele quartinho. Quem liga? Neuza ficou incomodada – era a única a frequentar o aposento – e resolveu passar um pano com desinfetante. Na hora, a mancha saiu. E a parede ficou inteiramente branca. Como deveria ser.
Alguns meses se passaram e os pontinhos se alargaram e começaram a subir pela parede em grandes nódoas marrons acinzentadas, pardas. Panos encharcados de água sanitária e desinfetante já não adiantavam. Por mais que Neuza esfregasse, esfregasse, esfregasse, até suas mãos sangrarem, as manchas persistiam. Escuras. Um pouco nojentas. Mas ninguém parecia se importar com aquilo. Apenas ela. Até tentou avisar a família, mas sua voz não foi ouvida. Ela se calou. E passou a conviver com aquilo. Como deveria ser.
Com o tempo, o bolor indomável foi subindo, subindo, subindo, devagarinho, tranquilo, imperceptível, até que chegou ao teto, formando as mais diversas figuras: santos, bichos, deuses. Pelo menos, era assim que Neuza os via. Ficava horas olhando para o alto, adorando aquela aquarela bolorenta da sua improvável Capela Sistina. De inimiga a ser combatida e eliminada, a mancha passou a ser por ela idolatrada, venerada. Como deveria ser.
A rotina da casa permanecia a mesma. O mesmo entra e sai diário. A mesma pressa vazia. As mesmas ordens. Os mesmos pedidos de me traz isso ou faz aquilo. As mesmas vontades sendo atendidas enquanto necessidades reais permaneciam esquecidas. Na nova casa grande, a vida continuava a mesma. Limpa, cheirosa, branquinha. Na senzala moderna, o bolor era tanto, que já não se conseguia mais separar o que era quarto do que era mofo. Estava tudo misturado, entranhado. E começava a feder. Mas o quartinho não afetava a família. Ele ficava bem isolado. Oprimido. E, portanto, podia feder à vontade. Como deveria ser.

O problema é que a mancha começava a se espalhar para além do tal quartinho. Avançava pela cozinha. A família, agora, reclamava do cheiro da comida. Berrava com a Neuza que, completamente intoxicada e entorpecida, nem respondia. Fazia o sinal da cruz, acendia o fogão novamente e continuava a mexer a panela. A temperar as carnes que não comia há séculos. Só alguns restos que lhe eram oferecidos nos fins de festa. Festas da família. Era também era “parte da família”. Como deveria ser.
Sem que ninguém percebesse – a gente vê aquilo que quer ver… – a mancha chegou à sala de jantar. Estava incontrolável, dominando tudo. A família, até então impassível e tranquila, começou a se desesperar. Gritavam com Neuza, como se a culpa fosse dela, que apenas rezava e rezava, pedindo a Deus por aquela família. Entre uma oração e outra, ela dizia: eu avisei, eu avisei. Ninguém ouvia. Como deveria ser.
No auge do desespero, usaram todas as armas que tinham para tentar conter aquela mancha horrorosa: tiros de escopeta, fuzil, Glock 9mm, Colt 45 e até lança míssil antitanque. Nada. A mancha continuava impoluta e plena. Acima de todos. Então começaram a jogar nela tudo que tinham pela frente. Água Perrier, álcool em gel, perfume importado e até whisky do rótulo azul foi atirado na mancha, sem qualquer sucesso. O bolor não reconhecia marcas e seguia sua marcha impassível. Como deveria ser.
De repente, a mancha parou. Em vez de se espalhar, ela se concentrou num canto formando uma espécie de ninho. A família respirou aliviada. Tudo não passou de um grande susto. Desse ninho sairiam pássaros que voariam para bem longe. Eles estavam seguros. Como deveria ser.

Quando todos já voltavam aos seus quartos com seus Iphones na mão, o primeiro ovo se quebrou. De dentro, em vez de um passarinho, saiu uma enorme serpente, que foi engolindo um a um. Primeiro, ela arrancava a cabeça. E cuspia fora, fazendo cara de nojo. Depois, devorava os membros: primeiro os braços, que engolia quase inteiros, como petiscos e depois as pernas, triturando fêmur, tíbia e fíbula, e deixando a patela por último, como a cereja do bolo. Mas o prazer maior advinha do tronco. Rasgava as vísceras com um deleite infinito, apreciando o sabor de fundo, talvez o único resquício de humanidade perdido… Não sobrou ninguém. Apenas Neuza, que, ainda rezando, seguiu com a serpente para outro condomínio. Como deveria ser…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.