Louca | Chloé Esposito

No termo de responsabilidade, prólogo com que abre o romance, a protagonista/narradora informa-nos ser a imagem especular da irmã: Ela é como deve ser, eu não. E deixa-nos um desafio: se Beth é um anjo… eu sou o quê?

Duas gémeas idênticas, monozigóticas, por fora ninguém as distingue. Alvie culpa Beth, como se não houvesse espaço para as duas, e a irmã sugasse tudo o que de bom a vida tem para oferecer, não restando mais nada.

A Alvie coube o que não podia ser associado a Beth. Beth a princesa, Alvie o sapo. Contudo, esta não é uma escrita de vitimização óbvia e fácil, basta lermos a descrição do comportamento de Alvie no casamento da irmã para percebermos que a autora é capaz de nos oferecer uma obra fora da caixa, que prende o leitor como se pede a um bom thriller. Nesse campo, Chloé Esposito não desilude.

Alvie menoriza-se ao ponto de sentir necessidade de dourar o seu perfil no Facebook, um pouco de brilho como um retoque de Photoshop. E se Beth escreveu um romance de sucesso, ela escreve haikus de estrutura livre, que são mais um lamento do que um momento de inspiração. São a poesia que cabe no tweeter. A escrita de Chloé transpira dessa contemporaneidade, onde a sofisticação dos ambientes é assegurada pela permanente epifania de estrelas de Hollywood, do socialite britânico ou do mundo do desporto, onde até o nosso Cristiano Ronaldo é invocado. Essa permanente necessidade de estar em locais que seriam aprovados por esses deuses, que os media nos impõem, cria no leitor a ilusão de que a protagonista não merece melhor sorte. Muito do que nos é narrado resulta da fixação doentia que Alvie nutre pela irmã – Beth sentir-se-ia à vontade rodeada de todo aquele glamour por ser o seu ambiente natural.

O comportamento associal de Alvie, prima por uma falta de respeito por si própria. O permanente menosprezo e a baixa autoestima são compensadas por violentos pensamentos de retaliação. Chloé oferece-nos uma escrita acessível, pensada para não complicar a vida ao leitor, evitando palavras com muitas sílabas. Literatura para uma cultura suburbana, antecipando um público que lê nos transportes públicos, uma escrita tabloide que se alimenta de sonhos, tricas e invejas. E depois Beth, sempre presente na vida de Alvie, como um membro decepado, mas que não se desprende e se arrasta uma vida inteira, um membro gangrenado, a cheirar mal.

Mesmo com todo o dinheiro de Beth, as suas roupas desenhadas pelos melhores estilistas e as suas joias caríssimas, nunca seria como a irmã. Beth seria sempre uma versão melhorada de Alvie, e isso só podia ser culpa de Beth.

Se fosse oferecida a Alvie a oportunidade de viver a vida de Beth? Afinal são idênticas por fora. Seria Alvie feliz no papel de Beth, contendo-se, comportando-se como a boazinha e perfeita senhora que todos viam na irmã?

As referencias literárias de Chloé Esposito são assumidas com um traço de humor, logo no início refere Zaddie Smith, a sua contemporânea que escreveu um aclamado romance sobre duas amigas de infância, onde tudo parece correr bem a uma e mal à outra. Mas a semelhança termina aqui, pois a personagem de Beth, vista pelos olhos de Alvie é completamente adimensional. Esta reedição da Gata Borralheira, em que a mãe faz de Bruxa Má e Beth surge como a filha megera que rouba o sapatinho de cristal a Alvie, é a inversão do universo cosmopolita e sofisticado de Zaddie Smith. Tom Ripley é igualmente invocado. Mas o assassino, criado por Patricia Highsmith, a quem tudo corre bem sem que se esforce por isso, vive numa trama policial bem mais sofisticada da que nos é oferecida neste romance. Depois, temos o sexo praticado com diversos tipos de homens, mais ou menos possessivos, que Alvie sabe disfrutar, seguramente, melhor do que a irmã, o que acaba por colocá-la em perigo. Será essa a maldição de Beth? Ao falecer em circunstâncias misteriosas, oferece à irmã a possibilidade de viver a sua vida de sonho, mas ao ter de lhe copiar o comportamento, a forma de vestir e de se comportar, Alvie vê-se impossibilitada de degustar a vida perfeita que lhe é oferecida. O mundo nas suas mãos, mas Alvie não nasceu para ser Beth. E será que Beth era uma santa? Nas páginas deste romance solta-se uma fúria como um fantasma ávido de sexo, sangue e crime.

Se vou ler um romance, quero que seja mais serpenteante do que uma jiboia e nos prenda com o dobro da força.

sobre o livro