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Mai11

Maria do Rosário Pedreira

A Feira do Livro de Lisboa está de novo aí – e gosto muito daquele ar descomprometido que tem. Alguns editores que começaram como aprendizes há mais de vinte anos – a Cecília Andrade da Dom Quixote, o João Rodrigues da Sextante e eu própria, por exemplo – fizeram muitas feiras atrás do balcão, que era onde se podiam auscultar os desejos e as necessidades do público quando o gosto não seguia modas mais ou menos globalizadas e parecia importante estar atento aos mais ínfimos suspiros. Nesse tempo – lembremo-nos – ainda havia poucos leitores; muita gente não tinha sequer coragem de entrar numa livraria, que era um lugar bastante formal, e a feira era uma das poucas ocasiões em que todos podiam ir olhar e mexer nos livros, tal como mexiam nos cacos e nos panos noutras feiras. Lembro-me de uma vez, estava eu ainda na Gradiva, aparecer uma senhora do povo (como então se dizia) que veio direita a mim a perguntar: “Ó menina, tem aí algum livro que ensine como se deitam os canários?” Houve outras cenas do género, mas esta ficou-me. E não é que havia mesmo quem tivesse publicado um pequeno volume sobre a reprodução de aves domésticas?