06

Set21

Maria do Rosário Pedreira

Não costumo ser maria-vai-com-as-outras, mas respeito a opinião literária de uma dúzia de pessoas e vi que algumas delas se entusiasmaram muito com a leitura de um romance francês, o que, nos tempos que correm, é coisa rara. Está certo que o livro tinha ganho (não me apanham a escrever «ganhado», lamento) o Prémio Goncourt, o mais importante galardão gaulês, em 2020, mas assim mesmo havia ali uma unanimidade no elogio que me suscitou curiosidade. Fui, pois, comprar Anomalia, de Hervé Le Tellier, para degustar nas férias. E é talvez o menos francês e o mais americano de todos os romances de autores franceses que li na vida, pois tem efectivamente um ritmo trepidante e a meio se transforma num thriller que é simultaneamente científico, paranormal, psciológico, social, mas muito literário também. Gostei mais da parte até à surpresa desconcertante (sem querer abrir muito o jogo, esta está ligada a uma hipótese de sermos meras «simulações»), em que nos são apresentados em capítulos autónomos muitos dos passageiros que iam em determinado voo intercontinental e apanharam o susto da vida deles com uma tempestade de granizo que rachou até o pára-brisas do avião. Mas na segunda concordo que o autor tem raro talento para nos agarrar e arrastar pelas suas páginas, é muito informado (matemático, jornalista, linguista, editor...) e escreve um romance a pensar em todo o mundo. Actualíssimo, distrai bastante. Traduziu-o Tânia Ganho e saiu na Presença.