(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em 22 de setembro de 2007)
Uma cena que nunca esqueci do filme As setes faces do Dr. Lao é, por acaso, uma das poucas que a obra-prima de George Pal aproveitou fielmente do romance de Charles G. Finney, O circo do Dr. Lao: o protagonista, o misterioso chinês que chega com seu espetáculo a uma cidadezinha do Arizona, está descrevendo as características de uma de suas atrações principais, a Medusa. Uma robusta senhora o vitupera: “Não acredito em uma só palavra do que o senhor está dizendo. Nunca ouvi tanta bobagem junta em toda a minha vida. Gente virar pedra! Que idéia! Seu marido ainda tenta intervir, mas ela insiste: “Cale a boca, Luther. Digo o que quero e quando bem entender.” Para então ouvir a resposta do Dr. Lao: “Madame, a atitude de ceticismo não lhe cai bem. Há coisas no mundo que nem a experiência de toda uma vida passada em Abalone pode conceber.”
Pois bem, se o Dr. Lao armasse seu circo-mundo em Amherst, Massachussets, provavelmente não faria tal censura, pois toda uma vida ali passada não impediu que Emily Dickinson (1830-1886) escrevesse a poesia menos provinciana, mais desafiadoramente conceitual, concisa e arrojada, quase que se poderia dizer filosófica, repensando tudo em seus próprios termos (ela tem um arsenal terminológico peculiaríssimo) e dando a seus curtos poemas um aspecto inaugural, de renomeação do mundo, dos sentimentos, das idéias:
A Relva pouco tem a fazer-
Uma esfera de simples Verdura-
Com Borboletas somente a cuidar
E Abelhas a entreter-
E ondular o dia todo aos bonitos Sons
Que as Brisas arrastam-
E no colo do Raio de Sol
Cumprimentar cada coisa-
E trançar, cada noite, como Pérolas-
E fazendo isso com esmero
Que uma Duquesa não saberia
Estabelecer a diferença-
E então ao morrer- passar
Para Aromas tão divinos-
De Especiarias, curtidos-
Ou de Nardos, periclitantes-
E então, em Altivos Celeiros, restar-
E, sonhando, os Dias Findarem-
A Relva pouco tem a fazer
Eu desejaria ser Feno.
Duas novas seleções, vinte anos após a memorável centena de poemas na tradução de Aíla de Oliveira Gomes, permitem ao leitor brasileiro explorar um pouco mais esse cosmo criado pela genial e enigmática imaginação trancafiada por toda uma vida em Amherst: Poemas Escolhidos (L&PM) e Alguns Poemas (Iluminuras). Ainda longe a tradução integral dos 1.775 poemas, mas pelo número de textos incluídos em ambas as coletâneas (ambas bilíngües) já temos um avanço perceptível.
Eu moro na Possibilidade-
Uma Casa mais aprazível que a Prosa-
Mais numerosas Janelas-
E superior- em Portas-
De Câmaras como Cedros-
Inacessíveis ao Olhar-
E tendo como Perene Forro
Os Telhados do Céu-
Visitantes- os melhores-
Por Ocupação- Isto-
Abrir amplamente minhas estreitas Mãos
Para agarrar o Paraíso
Talvez só a poesia do seu conterrâneo, o igualmente original Wallace Stevens tenha certa similaridade, na economia da forma, na estranheza lexical e conceitual, na aparência de “neutralidade” que nos faz cair num estado de tabula rasa que logo se transforma em algo que não nos sai da cabeça por um bom tempo:
Quando você varrer aquele sagrado Armário-
Intitulado “Memória”-
Escolha uma reverente Vassoura-
E o faça em silêncio.
Será um Labor de surpresas-
Além da Identidade
De outros Interlocutores
Uma possibilidade-
Augusta a Poeira desse Domínio-
Intocada- deixe-a em repouso-
Você não pode removê-la
Mas ela pode silenciar você-
O Dr. Lao compreenderia de imediato, com sua sutileza e sabedoria, que encontrou a Medusa em Abalone, em vez de levá-la para lá. Corremos o risco de petrificar-nos com o olhar poético da Madame de Sade de Amherst, para utilizar a feliz expressão de Camille Paglia, que no seu fabuloso Personas Sexuais não deixa por menos: “Emily Dickinson e Walt Whitman, aparentemente tão dessemelhantes, são confederados tardo-românticos da União americana… Ambos são perversos canibais da identidade dos outros, Whitman em seus gulosos auto-empanturramentos e invasões dos quartos dos que dormem e estão doentes, Emily em seus pêsames ritualísticos e seu lúbrico connoisseurismo da morte. Voyeurismo, vampirismo, necrofilia, lesbianismo, sadomasoquismo, surrealismo sexual: a Madame de Sade de Amherst ainda espera que seus leitores a conheçam”
Não seja por isso, Madame Camille (afinal, estamos falando de alguém que escreveu: “Morri pela Beleza- mas estava somente/ Acomodada na Tumba…”):
O catavento um pouco a Leste
Afugenta Almas de Musselina – para longe-
Se corações de Seda são firmes-
Mais do que os de Organdi-
A quem culpar? Ao Tecelão?
Ah, os enganadores fios!
As Tapeçarias do Paraíso-
Invisivelmente- são tecidas.
E para encerrar, antes que fiquemos iguais à pobre estúpida senhora de Abalone, que paga para ver: “Bem, vou mostrar uma coisa. Vou desmascará-lo diante de toda essa gente, ora se vou”. Ela mete a cabeça no cubículo da “atração”: “…antes de poder pronunciar outra palavra já estava petrificada”:
Do Drama a mais Vívida Expressão é o Dia Comum
Que levanta e repousa sobre Nós-
Outra Tragédia
Dissipada na Declamação-
Isto – a melhor encenação-
Quando a Platéia se dispersa
E a Bilheteria fecha-
“Hamlet” seria Hamlet-
Ainda que não por Shakespeare escrito-
E “Romeu”, não através da Lembrança
De sua Julieta,
Seria infinitamente encenado
No Coração Humano-
Único teatro conhecido
Não fechado pelo Proprietário.






