Fotografia da minha autoria

Tema: Um Thriller

Avisos de Conteúdo: Morte, Machismo, Adição; Referência a Abusos Sexuais, 

Suicídio e Violência; Linguagem Explícita

A jornada de um autor não precisa de ser feita dentro dos mesmos parâmetros. Aliás, aprecio bastante quando tenta distanciar-se um pouco do seu registo habitual, desafiando-se e arriscando noutros formatos. E há nomes que dificilmente nos desiludirão, porque não sabem escrever mal. Portanto, neste sentido, estava muito entusiasmada para mergulhar no segundo thriller da autoria de João Tordo: só não contava lê-lo todo num dia.

UM RITMO IMPARÁVEL

Águas Passadas, narrado durante um período de treze dias de chuva intensa, em Lisboa, centra-se numa investigação particular, com contornos de pura malvadez: o corpo de uma jovem de quinze anos é trazido pela maré, até à praia de Assentiz. A subcomissária da PSP, Pilar Benamor, é a primeira agente a chegar ao local e rapidamente compreenderemos que este crime terá desenvolvimentos angustiantes, que ocultam segredos.

«Curioso, não é? Que de um acontecimento funesto nasça a possibilidade de sentido»

O enredo em si é inebriante e intrigante, tal como se espera que seja um policial de excelência. No entanto, acredito que o autor foi capaz de adicionar uma camada extra. Assim, para além de nos orientar por caminhos sinuosos, que nos levam a traçar teorias e a desfazê-las de imediato, porque os dados não coincidem, construiu um conjunto de personagens fascinantes, com histórias que sustentam a narrativa. O crime é importante, claro, contudo, o foco na vida dos intervenientes torna o ritmo imparável e ainda mais estimulante.

«O vazio ri-se de nós, dissera a mulher na reunião»

A maneira como o passado reaparece no presente e como permite traçar o perfil psicológico de Pilar foi uma decisão de mestre. Por esse motivo, tenho a certeza que é uma das personagens mais complexas e completas com que me cruzei. Não obstante, considero que as figuras secundárias acompanham o seu nível de qualidade, complementando este quadro brilhante, enquanto o deixa credível - falível, emocional, identificável.

UMA LIÇÃO DE ESCRITA

Revoltei-me, senti-me imponente, insultei personagens e senti-me num ambiente claustrofóbico. Porque esta história é triste, carregada de penumbra e de um tom mórbido. Envolvendo-nos na sua dor profunda, angustia-nos e enoja-nos, visto que a crueldade do criminoso assume proporções desconcertantes. O estado de espírito que povoa toda a narrativa influencia-nos e transporta-nos para os recantos mais obscuros do ser humano.

«(...) como a escuridão continuava a ser um lugar inóspito 

para o ser humano, fazendo-o imaginar tudo o que não estava lá»

Por outro lado, sinto que este enredo assume um grito de resistência, que procura quebrar estereótipos e, sobretudo, quebrar uma rede maléfica, de podridão, com práticas hediondas. Mesmo que não consigamos atribuir nomes concretos, sabemos que os momentos descritos, infelizmente, não são meras conjeturas ficcionais. Há uma ponte com esta realidade que se afigura mais próxima do que, por vezes, imaginamos, onde o aproveitamento dos mais frágeis é uma constante, ainda para mais, quando se protegem nomes poderosos. Num jogo de sombras e silêncios, o assassino opera e consome-nos numa onda de vulnerabilidade e de medo.

«Foi então que se deu conta de que precisara de ter ido ali para saber qual era o lugar certo»

Águas Passadas é feito de dicotomias, de morte, de lealdade, de solidão. Em simultâneo, levanta questões sobre adição e sobre o papel da mulher. João Tordo deu voz a fantasmas antigos e levou-nos a explorar uma mente retorcida, deixando-nos sem espaço para respirar, uma vez que nos coloca a um passo de escutar a impunidade do mal. Talvez demore a recuperar desta leitura intensa, mas é uma lição de escrita extraordinária!

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