Já afirmei, a propósito de Deixemos falar o  vento (1979), que o uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) era o Samuel Beckett da América Latina. Isso pode parecer uma afirmação radical demais em se tratando de A vida breve (1950), contemporâneo da trilogia Molloy/ Malone Morre/ O inominável: em Beckett ação narrativa, noção de identidade e por fim o discurso são progressivamente destruídos. E, à primeira vista, o mais conhecido romance de Onetti, traduzido agora com considerável atraso, ainda parece utilizar um enredo discernível.

A mulher de Brausen, o narrador, tem um seio extirpado e acaba por abandoná-lo diante da sua indiferença e quase aversão. Ele é demitido da agência de publicidade em que trabalha e, com a indenização, acaba assumindo outra identidade, como Arce,  num relacionamento com Queca, prostituta já meio envelhecida que mora no apartamento ao lado. Além disso, ele começa a imaginar a história do médico Díaz Grey, em Santa María (cidade criada por Onetti como palco de seus textos), e sua peregrinação com uma mulher viciada (ele lhe fornece as drogas) que persegue um amante e que mantém seu companheiro de busca num clima de desejo frustrado.

Como se vê, se fôssemos levar o livro para essa cômoda abordagem de fatos e fatos que acontecem, num plano real ou imaginário, isto é, dentro da vida do protagonista  ou das suas fantasias, já teríamos pano para manga. Contudo, A vida breve  vai –e isso através de um discurso narrativo belíssimo e incômodo— transformar a realidade numa coisa tão fantasmagórica e lunar quanto Beckett e pioneiramente quanto à chamada “pós-modernidade”, na qual tudo isso ficou clichê e batido. Tudo é absorvido pelo buraco negro de uma sensação de inexistência e impotência diante do fato de viver. Contemplando Ernesto, um dos homens da vida de Queca, Brausen pensa: “…ele não passa de uma parte de mim, doente, que pode matar-me e da qual é prudente cuidar. Sou o único homem sobre a terra, sou a medida… Não passa de uma parte de mim; ele e todos os outros perderam sua individualidade, são partes de mim.”

Brausen aparece na vida de Queca como Arce porque uma vez entrou no seu apartamento (na ausência dela) e sentiu que, ali, o tempo se transformava num eterno presente, num sim, oposto à toda a negação e fracasso da sua vida. Até que o próprio lugar comece a se negar: “Lembrei que tinha descoberto, quase apalpado, o ar de milagre do quarto, pela primeira vez, numa noite em que Queca não estava, que o tempo particular da vida breve me alcançara entre a desordem de copos, frutas e roupas. Não é ela, ela não faz isso, convencia-me, são os objetos. E eu vou acariciá-los com um amor tão intenso que não poderão negar-se, um por um, tão seguro e confiante que terão de gostar de mim (…) Mas acabava compreendendo que nada fora conseguido, que minha memória ou minhas mãos não conseguiam dar com a coisa-chave. Tudo estava ali, pronto para encher o quarto com o esquecimento, com a paz, a alegria incomparável de minhas primeiras visitas. Mas algo obedecia a uma misteriosa afronta e resistia.” 

No fim, só resta a violência, a fuga contínua, a peregrinação sem sentido, simbolizada pela absurda jornada de Díaz Grey com a desejada Elena Salas, em que o médico pressente o voyeurismo do seu Demiurgo, espreitando sua vida:   “…chegava a intuir minha existência, murmurando entediado ‘ meu Brausen’; selecionava as desapaixonadas perguntas que faria se acaso me encontrasse algum dia.” 

E se houver dúvida que em A Vida Breve estamos no lado sombrio da lua humana, basta evocar a visão que Brausen tem da cunhada Raquel (e a quem ele preferia, como o Jacó da Bíblia), que está grávida: “A sensação repugnante e inimiga estivera brotando da barriga que lhe haviam feito, do feto que crescia anulando-a, que tendia vitoriosamente a transformá-la numa indistinta mulher grávida, que a condenava a dissolver-se num destino alheio (…) a barriga que lhe cresce equivale ao seio da irmã que cortaram”.

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de janeiro de 2005)