Rafael
Após certo tempo usamos as lembranças da vida para espantar o medo da morte. Memórias de épocas em que o fim era apenas uma possibilidade e não uma eminência.
Lembro de sorrisos, de lágrimas, de adeuses e de abraços. Poucas dores ainda doem.
Lembro sorrindo de muitas pessoas.
Eu sempre gosto muito das pessoas. Ao menos no começo.
E eu gosto muito de você, Sofia. Gosto um tanto que não se encaixaria em tamanhos ou intensidades, desde aquele dia em que nos conhecemos. Falávamos como recitássemos poemas.
Lembro que me perguntou, sem mais nem menos, qual era a pergunta mais bonita que eu conhecia.
Desconcertado, olhei para dentro de mim e me vi inebriado pela pergunta e, sem hesitar, respondi: “Essa: qual a pergunta mais bonita que você conhece?” e sorri. Você também sorriu.
sorrimos juntos
éramos jovens
e não sabíamos de nada
ao contrário dos dias de hoje,
quando somos velhos
e não sabemos de nada.
Passamos a vida inteira querendo viver, esgotar as possibilidades, para chegar ao fim preparados, mas não. Independentemente da forma como vivemos, morreremos despreparados, como amadores.
O tempo nos deu a paciência para entender que os sentimentos entram e nos atravessam como correntes elétricas. E passam.
O que sentimos depois são apenas lembranças.
Devo confessar que não vivi a procurar, mas me faltaria dissimulação para negar que em você encontrei a minha essência.
Não sou o maior interessado por poesia, mas com você só sei falar em versos.
Me faz bem.
Sou eu.
somos nós
nada é mais belo
que nossos corpos
entrelaçados
às nove
da manhã
de um domingo
qualquer.