Quem é o homem da capa preta?
Se tem uma figura pública que me intriga nos últimos tempos é Joaquim Barbosa, atual presidente do Supremo Tribunal Federal. Figura essa que ganhou destaque com o julgamento do mensalão com suas manifestações de repúdio à corrupção e aos demais crimes cometidos pelos réus. Nunca li nada sobre Joaquim Barbosa, apenas acompanhei os noticiários e mais recentemente assisti ao julgamento quanto ao crime de formação de quadrilha. Sempre fiquei na dúvida ao me posicionar ao seu respeito, pois ao mesmo tempo em que Joaquim demonstra moralidade e ética em seus argumentos, o considero bastante intransigente em relação aos votos dos demais ministros da justiça, embora muitas vezes eu também não concorde com os votos, mas acredito que seu papel é de mediador e que todos devem ser ouvidos. Então, ao ver o anúncio da sua entrevista ao jornalista Roberto D’avila na Globo News, resolvi assistir e tirar minhas conclusões a seu respeito.
Para quem como eu, que não sabia muito ao seu respeito, vou citar trechos da entrevista que me chamaram mais a atenção: Joaquim Barbosa é mineiro, nascido em família humilde, foi para Brasília com 16 anos e teve algumas experiências fora do país como estudante. Mas não gosta de ser reconhecido como alguém de origem humilde que superou dificuldades, como afirmou em sua entrevista: “-Me sinto uma pessoa afortunada porque raras pessoas no Brasil tiveram e souberam aproveitar as oportunidades que eu tive. Como, por exemplo, estudar na UNB (Universidade de Brasília) e Sorbonne na França, não é pelo fato de eu ter uma origem humilde, é na história brasileira que tem que se olhar quem teve e soube aproveitar essas oportunidades.”Uma citação que achei interessante é que o jornalista ao abordá-lo quanto às suas origens em Minas Gerais, estado conhecido pela “tranquilidade” do seu povo, Joaquim respondeu: “- Luís Carlos Brito diz que sou o mineiro menos mineiro que ele conhece, e eu concordo. Embora não queira negar minhas origens.” Ao que o jornalista completou: “- Talvez esteja mais para gaúcho não é, pois bate de frente.” Vejam vocês meus conterrâneos a nossa fama.
Quando questionado quanto ao racismo, o entrevistado afirmou que presenciou o racismo tanto como criança como no Supremo: “- Basta andar pelos corredores de Brasília e se observar a divisão de papéis, os cargos e salários menos relevantes são dos negros, e vão diminuindo até que o negro some. No mandato do presidente Lula, este me convidou para acompanhá-lo a uma viagem à África, eu recusei por não ser prática do Supremo que ministros acompanhassem comitivas de presidentes e também por perceber que se tratava de uma estratégia de marketing em relação aos países africanos. Espero que quando eu saia do Supremo, os presidentes nomeiem um certo número de mulheres e homens negros com naturalidade, quando pensamos em cotas não se olha o currículo, mas sim a cor da pele. E que não façam um estardalhaço, não tentem levar essas pessoas para a África para tentar esconder uma realidade, a realidade muito triste de que não temos representantes negros na diplomacia brasileira, nos negócios, e muito pouco no Estado. Os países africanos se receitem muito disso.” Outro trecho da entrevista que me interessou, por permear a intransigência que observo em sua postura, foi quando Roberto D’ávila perguntou: – O senhor não é muito duro? No que respondeu: “- Às vezes tem que ser, o Brasil é o país dos conchavos, do tapinha nas costas, onde tudo se resolve na base da amizade eu não suporto nada disso. Às vezes eu sou duro para mostrar que isso não faz o menor sentido numa grande democracia como é a nossa. Não suporto o sujeito ficar escolhendo palavrinhas para fazer algo inaceitável, e isso é da nossa cultura. O sujeito está fazendo algo ilegal com belas palavras, com gentilezas mil, isso é fonte de boa parte dos momentos de irritação que eu tenho.”
Enfim, o que pude perceber foi que se trata de um homem sereno, de muita cultura, apreciador e estudioso das ciências humanas. Difícil assisti-lo nessa entrevista e acreditar que é o mesmo homem em suas manifestações durante julgamento do mensalão. Manifestações estas que, no meu entendimento, se justificam quando menciona a cultura brasileira, em específico o que chamo de jeitinho brasileiro. Não o jeitinho de levar vantagem em tudo, mas no que se refere a nossa cultura de utilizarmos o apelo emocional para resolvermos nossas questões cotidianas. Aí vem a sociologia, o conhecimento do comportamento humano, artigos e estudos que demonstram o perfil do brasileiro. Aliás, já propus esta discussão quando ainda tínhamos um grupo de leitura por mail. Admirei sua postura de não se permitir ser rotulado como brasileiro, negro e pobre que venceu na vida, história que seria um prato cheio para uma campanha política.
Para mim o homem da capa preta é um brasileiro diferenciado, não pela sua história de vida, mas acredito que seu diferencial está em manter seu posicionamento diante de um ambiente rodeado por interesses políticos. Continuo não concordando com a intransigência ou digamos com a sua maneira um tanto “gaúcha” de defender seus argumentos, pois todos temos direito à liberdade de expressão.
E vocês que me leram até aqui, têm sua própria definição quanto ao homem da capa preta? Se tiverem compartilhem comigo sua opinião.
Letícia Portella
30 de março de 2014.