Eu levei um susto no Oscar desse ano. Estava eu, toda contente com meu livro recém-adquirido de “O Discurso do Rei”, editado pela José Olympio, do Grupo Editorial Record, comentando sobre ele com meu marido, quando percebo que o filme concorria pelo prêmio de melhor roteiro. Original. Minha primeira reação foi algo incrédula. “Como assim roteiro original? O livro está aqui do meu lado!”. Foi só no dia seguinte, quando efetivamente comecei a lê-lo, que me dei conta que este tinha sido inspirado pelo filme, e não o contrário.
Mike Logue, neto de Lionel Logue, o terapeuta vocal de George VI, foi procurado pela produção de “O discurso do Rei”, em busca de detalhes da vida do australiano a serem incorporados à narrativa. E foi o filme que deu a Mike a motivação para conhecer melhor a vida de seu avô. A partir dali ele angariou vários documentos de família, entre eles as cartas trocadas entre Sua Majestade e Lionel, e dois álbuns de recortes de jornal carinhosamente conservados. Ao tentar refazer os passos de seu avô, Mike Logue contou com o auxílio do jornalista Peter Conradi, e o resultado desta pesquisa foi compilado no livro que tinha em mãos.
O pano de fundo da história já é altamente interessante, passando por duas guerras, o glamour dos anos 20, as crises dos anos 30. Há ainda um interessante foco na tecnologia das transmissões radiofônicas, e no nascimento da fonoaudiologia. Mas é, essencialmente, a história da vida de dois homens; um nobre, segundo filho de Sua Majestade o rei George V, e um plebeu da colônia australiana. E, apesar da história da fantástica superação da gagueira do rei ser o foco dos comentários, por sua incrível recuperação, é, acima de tudo, a história de uma amizade. Uma amizade sincera, genuína e emocionante, entre dois homens que, em princípio, não deveriam nem ser conhecidos.
Tal amizade, possível pela ousadia de Logue, pelo problema de fala do então Duque de York, e pontuada pelo trabalho duro, nos permite ainda conhecer a força e o caráter das grandes mulheres por trás destes homens. O que vemos, muito além da firmeza de propósito dos homens, é que eles não iriam muito longe sem suas esposas. E eles são apaixonados por elas. A reverência de Logue pelo rei, no tom de suas cartas, não é apenas a devida pela realeza. É fundamentada numa profunda admiração pelo homem que foi George VI. O tom usado para falar das mulheres da família real é de assombro e de veneração.
E esta narrativa me levou às lágrimas várias vezes. Cada carta de agradecimento, cada presente espontâneo, cada detalhe desta amizade é cativante. São sentimentos tão puros que exalam da correspondência, e de todos os personagens, que é difícil não se identificar. E muito disso se deve ao tom da narrativa, um tom familiar, informal, e ao mesmo reverente. É a voz do neto nos contando como descobriu que seu avô era grande, e de sua importância na história.
E o filme, embora não tão historicamente acurado, capta bem o relacionamento entre os dois homens, e o foco na atuação faz com que o cenário seja quase completamente desnecessário, dando aquela sensação de que Colin Firth e Geoffrey Rush, um palco, duas cadeiras e um pano negro ao fundo seriam o suficiente. Livro e filme se complementam, e ambos valem, muito a pena.
O Discurso do Rei
Título Original: The king’s speech
Autores: Mike Logue e Peter Conradi
Tradução: Sônia de Souza e Celina Portocarrero
292 Páginas
Editora José Olympio
Grupo Editorial Record
Preço sugerido: R$ 29,90
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