Frestas no Paredão
crítica literária, mercado editorial, literatura brasileira, revistas literárias
Confira o editorial da edição outono-inverno da revista fina Escrever sobre literatura é uma atividade curiosa. São palavras e palavras sobre outras palavras. As revistas literárias estão mudadas, precisamos reconhecer. Salvo raras exceções, o leitor já não nos encontra impressas – as letras grafadas no papel, um prazer dos nostálgicos. Não estamos no tato, estamos no touch. A crítica – o exercício de reconsideração, de olhar para as nuances e pormenores de um texto – é rara. A chance de uma boa leitura pode estar escondida no turbilhão de publicações do Instagram. Para Odisseu, os mares gregos. Para Leopold Bloom, a metrópole em ascensão. Para nós, o algoritmo. As revistas que se propõem a ir além são como tijolos na terra devastada. A cultura não mais agoniza, como nos últimos anos, mas este respiro ainda não é de alívio. Nunca se publicou tanto, mas é preciso lutar por espaço e, para o leitor, resta a missão de garimpar em meio a tanta informação. O cenário é, por vezes, desanimador. Perdemos suplementos literários, escritores independentes se reviram e agitam para divulgar as suas obras. Nas frestas deste paredão – as pequenas publicações – estão as possibilidades. Este não é, entretanto, um editorial pessimista. São as possibilidades, acima de tudo, que os textos desta edição evidenciam. Em conversa com Bruno Pernambuco, o poeta e multiartista Ricardo Aleixo comenta sobre a carreira e o que significa, em condições materiais, ser escritor. A reconsideração é também uma marca de Carola Saavedra, entrevistada por Giovana Proença. Em seu mais recente romance, O manto da noite, a escritora questiona as consequências do turbulento passado da América Latina. Finais e novos começos são explorados pelo escritor Bruno Inácio, que investiga o tema do luto em obras nacionais contemporâneas. Transformações e escolhas marcam o volume de contos Mulher feita, da pernambucana Marilene Felinto, resenhado aqui por Amanda Cruz. O pendor para a literatura brasileira é claro. A exceção também evidencia uma possibilidade: o encontro. Laura Pilan, pesquisadora da obra de Virginia Woolf, escreve sobre as marcas da autora inglesa, transformada em personagem no romance As horas, de Michael Cunningham. A ficção, essencial à toda publicação literária, fica por conta de Adilson Zambaldi e Tiago Feijó. A dose de poesia, por sua vez, é com Julia Bac e Bruno Pernambuco. Como de costume, o titular da crônica é o fundador da fina, Matheus Lopes Quirino. Na estante, a editora Giovana Proença recomenda dez títulos para a temporada de outono-inverno.
Texto originalmente publicado em Revista Fina