Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Primeiro filme que vi no cinema sem legendas e com áudio original em inglês, foi um desafio acompanhar os diálogos e pensava que ia perder boa parte deles. Mas Mission: Impossible – Ghost Protocol acabou sendo uma boa escolha neste sentido. Por ser um “filme de ação”, não há longas cenas com diálogos complicados, e consegui entender talvez 85% do filme, o que não prejudicou minha compreensão a respeito da história como um todo.

O primeiro Missão: Impossível é quase um jovem clássico. Dirigido por Brian De Palma, tem um ótimo ritmo e imortalizou pelo menos uma cena: Ethan Hunt descendo pelo teto e controlando até o suor. O segundo foi um dos filmes mais aguardados no cinema por mim, naquela época (o filme foi lançado em 2000). Isso por causa do trailer e da promessa de cenas espetaculares de ação dirigidas por John Woo. Foi uma tremenda decepção: o filme é muito, muito fraco. No terceiro, dirigido por J. J. Abrams, o destaque está para Philip Seymour Hoffman e seu vilão caricaturizado. O nível melhorou bastante, e Missão: Impossível III quase alcança o patamar da série Bourne. Este quarto filme, dirigido por Brad Bird (o diretor do ótimo Os Incríveis e do espetacular Ratatouille), concentra-se na ação e na diversão. Ethan Hunt é um herói, um quase James Bond, capaz de se disfarçar como ninguém, de falar russo sem denotar qualquer sotaque e arriscar um audacioso plano de fuga apenas para ajudar um amigo da prisão. O filme é bastante óbvio em diversos momentos e deixa a desejar principalmente em relação às personagens. Se Ethan Hunt dispensa apresentações, o restante do pessoal se limita aos clichês:

Simon Pegg é o gênio da informática. É o engraçadinho do grupo, é fraco fisicamente, meio sem jeito com as garotas, enfim, um nerd. Já viram isso? O gênio da informática do time ser o alívio cômico e ser um nerdão?

Jeremy Renner é ainda pior: é o sem personalidade. Na primeira vez que ele aparece ele é todo misterioso. Depois, vira alívio cômico por algumas cenas. Depois esquece tudo e passa a ser um personagem atormentado por um terrível segredo. Ohhhh!

Vladimir Mashkov, coitado, não tem escolha. Existe apenas para tentar dar mais caldo à trama. Ele é um agente de polícia russo que tenta prender Ethan Hunt e passa boa parte do tempo fazendo isso. Mas suas incursões são tão frágeis e sua participação tão inócua, que você poderia muito bem pensar todo o filme sem que ele aparecesse. E o filme ficaria até melhor, mais direto.

Por último, a “bondgirl”, ou a mocinha da trama, Paula Patton. Fraquíssima, vide a cena em que ela tenta seduzir um magnata. Constrangedora. Ela é a agente secreto que perdeu seu amor (outro agente secreto) e por isso tem motivações bem pessoais para essa missão. Novidade? Todo filme de Van Damme tem essa trama, variando apenas o grau de parentesco do ente querido (mulher, irmão, avô, pai, amigo, vizinho, cachorro).

Tudo bem, estou sendo muito exigente. O propósito de Missão Impossível é divertir, trazer cenas como aquela em que Ethan Hunt está algemado a uma maca de ferro (com uma algema em cada mão), acaba de acordar depois de uma explosão tremenda, consegue roubar um clipe de papel de uma enfermeira e em cerca de dez segundos, não mais do que isso, simplesmente sumiu da maca (claro que o diretor não mostra como ele fez esse milagre, e nós nem esperaríamos que ele mostrasse: ele é Ethan Hunt!). O que me incomodou realmente no filme foi como a inteligência do expectador por vezes é subestimada. Na cena inicial do filme um agente secreto morre. Todos vemos isso acontecer. Quando aparece a agente que era seu interesse amoroso e Ethan Hunt pergunta por que ela está no caso, ela diz que perdeu alguém importante (ou algo assim) e a cena exata do agente levando o tiro aparece em flashback! Somos tão estúpidos para não ligarmos uma coisa com a outra?

Outra coisa: o filme tem cenas em Dubai, um lugar lindo de se mostrar. Onde ele ia fazer sua cena de ação? Claro que no prédio mais alto do mundo, colocando Ethan Hunt para escalá-lo, mas até aí tudo bem. Só que eles pensaram outra coisa: Dubai fica no deserto… Ficaria legal se a gente fizesse acontecer aqui uma… tempestade de areia!!! Eles devem ter visto A Múmia e acharam que ficaria interessante.

Mas acho que o que mais me incomodou mesmo no filme foi a cena final. Não o clímax do filme, mas a resolução de um dos “dramas centrais” da história. Há possíveis spoilers, por isso vou deixar o texto em branco. Quem quiser ler, é só selecionar o texto.

Tudo bem que a esposa de Ethan Hunt não estivesse morta e ele revelasse isso a Brandt no final. Mas justo no momento em que ele pensa nela ela tinha que aparecer? Aí entra a parte revoltante: ele a vê ao longe, e como ela é a mulher dele, por mais que ache que ele morreu ou qualquer coisa assim, o diretor não quer que maculemos a imagem dela achando que ela está namorando alguém. Para não parecer que ela está triste ou solitária, entretanto, ela vem andando acompanhada de um homem, e ambos estão conversando muito animados. Detalhe: é um negro muito grande e gordo. O diretor quer que pensemos: são só amigos, o que é um preconceito absurdo. Não haveria a menor chance, ele parece querer dizer a Ethan e a nós, a menor chance de ela estar namorando esse cara. Ethan Hunt a observa entrar num estabelecimento qualquer, ela pressente, olha de volta, e ambos sabem que se amam.

Minha avaliação:

2,5 de 5