Philiph Roth é um dos maiores escritores americanos da segunda metade do século XX, mas só se tornou conhecido do público leitor brasileiro há uns poucos anos, principalmente depois que a Companhia das Letras passou a publicar seguidamente vários de seus títulos.

Os temas de Roth refletem problemas atuais e o seu estilo tem a contundência própria de nossa época. Em seu primeiro livro impactante, O complexo de Portnoy (1969), Roth já imprimiu algumas marcas incisivas de sua ficção: a abordagem ácida, com ironia causticante, da subjetividade e da sexualidade e suas relações com o opressor american way of life.

Os códigos da sociedade americana – moralismo, xenofobia, ufanismo, arrogância, competitividade, violência, belicismo etc. – são criticados corrosiva e sarcasticamente pelos narradores de Roth, os quais, como vozes dissonantes, vozes não oficiais, rechaçam o discurso standart. É uma literatura que continua a rica tradição outsider americana, que teve seu auge na Geração Perdida, cuja maior expressão talvez seja O grande Gatsby de Fitzgerald.

O último livro que li de Roth, Indignação, o qual destaco entre seus outros títulos, é uma mostra radical das rupturas do autor com o discurso estadunidense oficial. Publicado no Brasil em 2009 pela Companhia das Letras, pode-se dizer que nele Roth filia-se ainda a uma outra tradição da literatura americana: a das narrativas de jovens loosers, da qual fazem parte J. D. Salinger, com Holden Caulfield e John Fante, com Arturo Bandini. Em todos os casos, são jovens de algum modo excluídos pela sociedade violenta, hipócrita e intolerante em que vivem.

O enredo de Indignação está bem descrito nesta apresentação da Companhia das Letras:

“Neste romance, Philip Roth surpreende críticos e leitores com uma história que escapa completamente à temática de seus trabalhos anteriores, como Homem    comum ou O fantasma sai de cena, que versavam sem meios tons sobre o fim da vida e suas mazelas físicas e espirituais. O que temos agora é a experiência iniciática de um jovem de dezoito anos, Marcus Messner, nascido e criado em Newark, Nova Jersey, esbanjando vigor, ambição, ousadia e desejos irrefreáveis ao ingressar na vida adulta. Filho único de um açougueiro kosher superprotetor, Messner busca uma faculdade do Meio-Oeste americano, bem longe de casa, o que lhe permite escapar da sufocante vigilância do pai, da medíocre universidade local onde cursara o primeiro ano e de suas funções como ajudante no açougue. Corre o ano de 1951, e os Estados Unidos enfrentam uma guerra cruenta na Coreia, conflito que paira como ameaça letal sobre o agora segundanista de direito em risco de ser convocado para lutar no front, caso não consiga se destacar nos estudos acadêmicos e no curso para o oficialato. Furtando-se, pois, a vícios, prazeres e uma vida social universitária, o personagem-narrador se entrega aos estudos de forma a jamais tirar menos que 10 em todas as matérias. Entretanto, um poderoso obstáculo se interpõe nos planos de Messner: seu próprio temperamento, irredutível a convenções hipócritas, como assistir a preleções obrigatórias sobre a Bíblia na igreja evangélica do campus e participar do mundinho das fraternidades. Isto, sem contar a irrupção anárquica do sexo e do amor em sua vida, na figura tão adorável quanto enigmática de sua colega de classe Olivia Hutton. Indignação demonstra com sutil maestria as vias insuspeitas que conduzem eventos e escolhas aparentemente banais na vida de um jovem a resultados de uma gravidade desproporcional. Roth exibe neste romance curto mas de enorme densidade humana, social, política e literária, um inconformismo explosivo de adolescente em busca de seus próprios caminhos na vida, alguns dos quais poderão incitar a ira vingativa de uma sociedade conservadora gerida por mentes tacanhas.”

(http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12642)

Com o uso do monólogo interior e da linguagem direta, ferramentas fundamentais de muitas das grandes narrativas modernas, Roth aborda novamente nesse livro as questões da sexualidade, do mesmo modo direto e aberto com que esse tema aparece em O complexo de Portnoy e em outros. E o caráter licencioso da literatura de Roth é sem dúvida um de seus aspectos mais atraentes.

Indignação é uma narrativa pequena e ágil, capaz de capturar o leitor sem o deixar fazer mais nada da vida enquanto lê.

Tudo o que li de Roth me impressionou muito e me ajudou a provar que, de fato, é um preconceito perigoso o ditado “autor bom é autor morto” (o que dizer então de gênios como o sul-africano J.M. Coetzee?) e Indignação, ao lado de Animal agonizante, é o título dele que mais me surpreendeu.

Leia duas entrevistas concedidas por Philip Roth e, entre outras coisas, descubra a relação do autor com seu trabalho e o curioso fato de ele já ter lido nosso mestre Machado de Assis:

http://www.revista.agulha.nom.br/philiproth1.html

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/medo-de-perder-talento-liga-philip-roth-a-protagonista-de-quota-humilhacaoquot.shtml