Quisera estar vazia nesta noite,
sem ter em mim recantos de saudade,
sem ter veredas, nada que me açoite,
e a ruda dor que sempre assim me invade!

Quisera ser parede sem retrato,
sem telas, sem pinturas, sem enfeites,
ser ente bem vazio, só, abstrato,
ser lisa, nua, sem quaisquer confeites!

Quisera ser o vácuo, sem ter eco,
o vinho que, na taça, sugo e seco...
Quisera ser o nada deste instante!

Quisera! Neste meu penar disseco
a tua sombra que me vem constante,
morrendo-me d’ amor de ti distante.