E então acordamos. Este último volume de Sandman é um complicado rito de adeus, o mais difícil. Dar adeus às coisas que gostamos muito. São as últimas 6 edições, sendo que quatro delas falam sobre nosso despertar, a quinta é uma espécie de epílogo, e a última é um memorial.  Após a morte de Morpheus, Despertar é o ritual de transição entre este e Daniel, agora Senhor dos Sonhos.

É também o adeus final do leitor a esta obra magnífica da literatura em quadrinhos. Afinal foram 9 anos e mais de 2000 páginas escritas e desenhadas, numa narrativa ao mesmo tempo caótica e coesa, repleta de personagens bem construídos e panos para as mangas da imaginação. Sandman se encerra com o Despertar, mas a sua memória nos acompanha, talvez para o resto da vida.  Citando o próprio Gaiman: ” Aquilo que é sonhado jamais poderá se perder, jamais poderá deixar de ser sonhado”

Comecemos então nosso ritual de Despedidas. No Capítulo Um : O que ocorre no rastro do que passou (Sandman #70), o mensageiro avisa os irmãos da morte de Morpheus. Sonhadores nossos conhecidos e nós somos chamados para o reino do Sonhar.  Os perpétuos sequem para a Necrópole Litargo, para reaver o manto e o livro que fazem parte do ritual funerário de sua espécie. Para tanto devem criar um constructo, que Delirium batiza de Eblis O’Shaugnessy, formado de sua essência, mas que não poderá sonhar ou destruir. Enquanto isso, como em final de novela, personagens –  reais, vivos, mortos –  que conhecemos ao longo da série dormem. Entre eles, Alexander Burgess, Rose Walker, Lyta Hall, Richard Madoc, Hob Gadling, Imperador Norton,e o leitor. Deuses e reis de outros mundos atravessam o portal do Sonhar, para dar seu último adeus, Bast, o anjo Duma e Titânia entre eles. Nesse meio tempo vemos como o novo Senhor dos Sonhos reconstruindo seu reino, recriando ideias, se acostumando com ser algo ao mesmo tempo novo e mais antigo do que as eras.

Mathew, o corvo de Morpheus, está desconsolado, Hob Gadling não quer acreditar. E é tocante o fato de eles realmente chorarem por Morpheus como se chora por um amigo. Com os sonhadores reunidos, inicia-se o velório. O “Capítulo 2: No qual um velório se realiza” (Sandman #71), inicia-se com a construção de um memorial no coração do Sonhar. Enquanto os Perpétuos, maiores que todos os presentes, juntam os tijolos, os sonhadores contam uns aos outros suas relações com o falecido. São lembrados bons e maus momentos, histórias que ficaram subentendidas durante  a série. Suas amantes falam. Seus amigos falam. Outros conversam entre si. E nós sentimos que o fim se aproxima.

No “Capítulo 3 – No qual despertamos” (Sandman #72), inicia-se o funeral. Os sonhadores tomam os seus lugares, os irmãos discursam, os amigos discursam, e Destruição, que não compareceu ao velório, visita a nova faceta do Sonho. Acredito que esta tenha sido a forma de Destruição dar o seu adeus ao irmão. Ele retoma o discurso de Vidas Breves para o novo irmão, mas o Senhor dos Sonhos não deixará seu reino. E acaba. Acaba com o perdão, com a redenção de Morpheus. Aqueles que sofreram seus castigos são libertados, aqueles que lhe fizeram mal foram perdoados. Acordamos no momento em que o novo Senhor dos Sonhos será apresentado à Família. “The king is dead. Long live the king”

Segue-se o primeiro epílogo no Capítulo 4 (Sandman #73). O personagem principal desta história é Hob Gadling (aquele com quem Morpheus passava uma noite no bar a cada século). Ele e sua namorada Gwen estão numa Feira da Renascença, algo que Hob detesta. Ele se sente compelido a reclamar dos anacronismos, dos erros, das falhas, de como tudo aquilo não representa o passado, mas sim o presente. Ao mesmo tempo faz um exame de consciência sobre sua vida, sobre seu tempo como traficante de escravos, e fica mais e mais bêbado. Ali, escondido no único prédio similar ao que conheceu, ele encontra a Morte, que o visita em memória de seu irmão. É uma das conversas mais interessantes de toda a história. Bem como seu sonho no finalzinho. Um poético caminhar em direção ao fim da história. Comovente.

Exilados (Sandman #74) Poderia ser um prelúdio das histórias do novo Sandman. Com uma arte belíssima, baseada nas artes orientais, é a jornada de Mestre Li ao exílio. Atravessando o deserto, acompanhado de um pequeno gatinho, ele acaba por visitar uma das regiões abstratas,  e encontra-se com o Senhor do Sonhar, já sobre sua nova perspectiva. É uma história de aceitação, de seguir o seu destino. Fala alto com a cultura asiática, seus preceitos de obediência. É também um retrato da nova cara do Sonhar.

Finalmente, a Tempestade (Sandman #75) é o que eu considero um memorial e a percepção do fim. É a entrega da última história de Shakespeare a Sandman. Fala do processo de escrever, do processo de terminar a obra de uma vida, de deixar algo que povoou sua existência por tanto tempo, e agora chega ao fim. Talvez seja uma mensagem, talvez seja metalinguagem. Com certeza é um belo final para uma bela série.

Foram 75 volumes de sonhos, e agora acordamos. Para nossa sorte podemos recomeçar a sonhar a qualquer momento. O fato da série terminar em si já é fantástico, dá à obra um toque de clássico, algo que não se perde no tempo, mas ganha a cada dia novos matizes. Já estou curiosa para a leitura que farei de Sandman daqui a cinco anos…

Acabou, e você estava lá.

Se você perdeu nosso especial, aproveite e leia do começo:

Sandman: Prelúdios e Noturnos

Sandman: A Casa de Bonecas

Sandman: Terra dos Sonhos

Sandman: Estação das Brumas

Sandman: Um Jogo de Você

Sandman: Fábulas e Reflexões

Sandman: Vidas Breves

Sandman: Fim dos Mundos

Sandman: Entes Queridos

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