“Minha doença me revelou a minha mulher, e aliás me revelou a mim mesmo. Nunca fui de desconfianças, e sempre enchi Silvana de mimos, sem fazer uma crítica, um reparo, um senão. Quando as tosses começaram, o rosto dela assumiu uma expressão preocupada. Vivia torcendo um lencinho bordado nas mãos e estendendo-o para minhas mãos trêmulas. Tornou-se de forma geral mais atenciosa com tudo e com todos. Recebia as visitas com esmero e quase devoção: comprava flores, arrumava mil vezes os bibelôs sobre o aparador. Um dia, percebi um olhar diferente dela para um amigo meu, que nos visitava todas as segundas-feiras. Logo notei que nesses dias ela se arrumava de forma especial, sempre com um novo detalhe, como uma presilha nova ou uma sandália mais delicada. Seriam ciúmes de tuberculoso?—era o que me perguntava. Passei a responder com um resmungo ás perguntas que me fazia, e ela deixou de me olhar diretamente nos olhos, como costumava fazer, com seu rosto erguido e seu riso franco de outrora. Mas quando meu amigo chegava—e suas visitas eram cada vez mais frequentes—ela se desdobrava em sorrisos. Você sabe que a cara do marido pode influir no adultério; quanto mais uma tosse seca e insistente. Eu espionava-a quando ela pensava esta sozinha, e mais de uma vez a peguei cantando baixinho. Silvana saía todo fim de tarde, esquivando-se de mim. Meus amigos frequentavam então pouco a nossa casa; tenho certeza de que ela saía para encontrá-los em outros lugares—sabe-se lá em que antros. Via cenas horríveis: de boca vermelha e retorcida, ela me traía com meu irmão, meus amigos e até com um padre que conhecíamos. Eu estava magro, mas os braços e as pernas dela tinham se tornado diáfanos, quase transparentes. Finalmente mal nos olhávamos; e quanto tive de partir nos demos um vago adeus. O mais incrível de tudo é que eu, mesmo sem falar com ela, mesmo fingindo ignorá-la da maneira mais abjeta, a perdoava, desde o início, e ainda hoje a perdoo.”
“O tuberculoso é aquele que teima em viver depois de ter morrido”.
As duas citações acima foram extraídas de A fome de Nelson, romance de Adriana Armony publicado em 2005 pela Record. A autora carioca, então com 36 anos, vinha de uma tese de doutorado em que estudava Nelson Rodrigues como leitor de Dostoiévski. Logo, nada mais natural do que transformá-lo num personagem dostoievskiano.
O período da sua vida em que a família está na quase-miséria absoluta devido à sucessão de ocorrências trágicas (o assassinato do irmão, o galã da família, Roberto Rodrigues, por Sylvia Seraphim, a qual, na verdade, fora à redação do jornal que o pai dirigia para matar a ele, que acabou morrendo, de fato, pouco depois, e o declínio financeiro arrastou a todos), a aparência maltrapilha, a vida mental intensa e que muitas vezes não se ajusta à realidade circundante (candidato a escritor, escriba do jornal “O Globo”, frequenta meios literários, mas é como se fosse num clima de sonho: é apaixonado e alimenta projetos de casamento com uma linda bailarina, Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, com a qual mal troca alguma palavras[1]), as caminhadas sem fim (premido pela falta de dinheiro para a passagem) pelo Rio de Janeiro nos anos 30, do subúrbio até o centro, todos esses elementos são perfeitos para criar uma atmosfera digna do autor de Crime e Castigo. E a cereja do bolo: a tuberculose, que leva o jovem escritor “febril” para a sua Sibéria pessoal, o Sanatorinho, em Campos de Jordão (Raskólnikhov foi para a Sibéria, degredado, no final do romance mais famoso de Dostoievski, e o próprio autor russo viveu essa experiência-limite, como nos conta em Recordações da casa dos mortos).
Para servir de anteparo a essa ligação estreita entre os dois escritores (e, sejamos francos, também em função de cacoetes da pós-modernidade[2]), Adriana Armony molda um narrador que resolve contar sobre a vida de Nelson porque supostamente teria sido seu contemporâneo na estadia em Sanatorinho (embora não se aproximassem muito ali). Mais tarde, funcionário público aposentado, escreverá um relato obsessivo e que pode conter uma mistura do factual com o literário e o alucinatório (como nota argutamente o autor da orelha do livro, Ricardo Oiticica, essa confluência aproxima A fome de Nelson da experiência levada a cabo por Nelson em Vestido de Noiva e seus planos alternados)[3].
Considero o livro muito bem realizado. Se há um senão a fazer é o fato de a autora não nos dar mais, de não ter feito um relato mais longo.
Eu sei, eu sei que o sintético é bom, que menos é mais (e também que o mais das vezes a reclamação é oposta: de que um livro poderia ser menor, sem prejuízo), e o próprio Nelson Rodrigues, excessivo como era, chegou aos píncaros da sua realização artística no “nada falta, nada sobra” de Senhora dos afogados (1947).
Entretanto, Adriana Armony coloca tantas coisas, misturando até focos narrativos distintos (como o da irmã de três anos de Nelson, num determinado momento) num texto tão curtinho, que ela mesma parece eloquentemente ressaltar que poderia ter percorrido outros caminhos dentro do texto e feito um romance maior.
Não acho justo que isso fique como uma sombra prejudicando o efeito geral de A fome de Nelson, apenas sublinho que não faltaria material para ela expandir seus paralelos dostoievskianos e que esse lado fuliginoso da biografia rodriguiana é propício para uma obra de fôlego maior.
Gostei especialmente da parte de Sanatorinho, da convivência com outros “mortos sem morte” (um dos quais é o que narra a história da epígrafe), e sobretudo, do relato da criação de um primeiro “espetáculo” rodriguiano dentro daquela instituição como forma de mostrar a passagem do candidato a romancista-epígono de Dostoievski para um autor teatral com sua voz única, além do fato de que aqueles “solteiros” forçados se movimentarem no polo psíquico dos abandonados, dos traídos que perdoam, dos ressentidos, dos impotentes, dos nostálgicos mesmo do desprezo e indiferença da mulher, ou seja o polo em que se movimentarão tantos personagens do futuro dramaturgo, cronista e folhetinista.
Ao fim e ao cabo, esse curto e eficaz A fome de Nelson nos dá fome de Nelson, de mergulhar novamente no seu universo de tuberculoso que viveu depois de ter morrido.
[1] As cenas no “salão parisiense” de Eros lembram similares em Memórias do Subsolo ou O Duplo, com o protagonista sempre em “estado de vexame”.
[2] Daí que o relato comece com um tom paródico (apropriando-se do início de Memórias do Subsolo):
“Sou um homem doente, um homem desagradável, creio que sofro do fígado… É mais pura verdade; e no entanto alguém já escreveu isto, e me espreita das páginas de um livro com sua barba espessa e olhos que ´perscrutam a alma´ (…) surge-me inadvertidamente essa palavra antiga, alada, que se estende como um lençol perfumado sobre o meu corpo cansado. Quem hoje perscruta a alma de alguém? Ou antes: quem hoje tem alma? É uma palavra tão fora de moda quanto ´polainas´, por exemplo…”
[3] “… aqui me confundo, não sei mais quem é este, se ele ou outro, ou se fui eu, com minha febre de tuberculoso, em meu delírio de desenganado, que misturei tudo, pois o que ocorreu provavelmente foi algo inteiramente diverso, a tosse seca de Nelson simplesmente se repetiu até consultarem um médico, que pediu que ele repetisse 33, mas não disse que a melhor coisa a fazer era tocar um tango argentino; e era Dostoievski que tinha ataques epilépticos precedidos de uma iluminação que o cegava, uma sensação aguda de prazer que se espraiava em doces e terríveis convulsões; além do quê, toda essa história de crime soa talvez um tanto forçada; a verdade é que, descoberta a tuberculose, Nelson foi mandado para uma casa de recuperação, onde conheceu homens esquálidos e fascinantes, ´mortos sem morte´ que viriam mais tarde povoar sua imaginação; foi lá que eu o conheci e, a meu modo, o amei”.







