‘9 contos’ de Salinger expõe retrato da sociedade norte-americana pós guerra
literatura norte-americana, contos, trauma de guerra, teoria literária, crítica literária
imagem/reprodução Os 9 Contos nos oferecem uma visão da sociedade americana pós-guerra, estilhaçada pelos rastros do maior conflito bélico da humanidade Giovana Proença Ler Salinger é como sentar à mesa com um amigo. O autor norte-americano compõe como ninguém a expressão da linguagem coloquial. A experiência literária é pautada na íntima proximidade, diálogos desconcertantes perpassam as páginas dos 9 Contos, livro que chegou aos leitores brasileiros com brilhante tradução de Caetano Galindo, em renovação da linguagem simples e direta do estadunidense. Se dois anos antes Salinger já tinha se consagrado e colocado Holden Caulfield na lista dos mais populares personagens literários de todos os tempos com a publicação de O apanhador no campo de centeio, os 9 Contos o colocam em um novo patamar; representando um dos mais célebres momentos da narrativa breve de língua inglesa. “Um dia ideal para os peixes-banana”, conto de abertura da coletânea, originalmente publicado na The New Yorker, dita o tom do livro. A narrativa é um dos contos mais afamados, redefinindo toda a arte da narrativa. Salinger sabe construir personagens que transitam no limite da desrazão. No limiar, o trauma da guerra, conflito que antecedera os anos da publicação dos 9 Contos e alastrava seus rastros no âmago da sociedade norte- americana, marca sua presença. Logo no primeiro conto, apontado constantemente como o melhor entre os nove, a nuance corriqueira duela com a mais estonteante descrição de um suicídio de toda a literatura, arrisco apontar. Na tensão crescente nos enredos, contos que são verdadeiros nocautes até nos leitores mais prevenidos, Salinger traz novos ares à teoria aplicada por Edgar Allan Poe, o rei do clímax narrativo na literatura de língua inglesa. O autor de O apanhador no campo de centeio brinca com falsos ápices, questiona intenções, aflige nossos corações para no fim dizer: é só isso; ou não. Quando por fim respiramos aliviados, vem o golpe. A prosa jovial do autor afaga antes de matar, mas antes nos regala com os momentos de alívio, no humor cotidiano. Os 9 Contos nos oferecem uma visão da sociedade americana pós-guerra, estilhaçada pelos rastros do maior conflito bélico da humanidade, e suas consequências no sujeito. A crise do american way of life ganha retrato nas palavras do autor, cortantes por sua simplicidade e falta de adorno. Sobretudo, reina a sutileza, o peso do não dito que grita nas entrelinhas. J. D Salinger deixa rastros de seu evidente talento como contista. Acima de tudo, um narrador nato, como prova a voz de Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio. Nos contos, ele é O Narrador, demonstração viva da imortalidade do narrar vinculado à experiência, uma subversão de Walter Benjamin, notório ensaísta e explorador do silêncio sobre a vivência da guerra, fratura aberta para seus experimentadores. Ler Salinger é como sentar à mesa com um amigo, mas nunca se sabe o que será servido. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina