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| Fotografia da minha autoria |
«A geração Soviética caída na guerra do Afeganistão»
Avisos de Conteúdo: Cenas/Linguagem Explícitas;
Referência a Morte, Suicídio, Violência, Violação
A verdade à vista de (quase) todos, no entanto, era maior o medo de a comprovar. E foi ao tentar evidenciar essa verdade, através dos relatos sofridos de mães, de filhos, de esposas, de soldados, de enfermeiras, que Svetlana Alexievich se viu julgada em tribunal, acusada de distorcer os factos que compilou neste livro.
A GUERRA, SEMPRE A GUERRA
Rapazes de Zinco centra-se na guerra do Afeganistão, que gerou cerca de «quinze mil mortos e mais de quatrocentos e cinquenta mil feridos e doentes», combatida entre 1979 e 1989. No decorrer deste acontecimento nefasto, houve uma geração a ficar condicionada física, emocional e psicologicamente, por ter sido envolvida em algo sem qualquer sentido e que, na falta de melhor argumentação, não procurou.
«Sei que me vai procurar, que me vai pedir perdão. Mas quem é que lhe pede perdão?»
Conhecer a parte história é fundamental, claro, mas fascina-me sempre mais descobrir o lado humano, os testemunhos tantas vezes silenciosos de quem, direta ou indiretamente, viu a sua vida virada do avesso (no mínimo). É o segundo livro que leio da autora e sinto que, sem romantizar as vivencias, nunca fere a dignidade daqueles que lhe abriram o coração, muitas vezes a medo, muitas vezes sem saberem a extensão das repercussões dessa decisão, porque precisavam de ser ouvidos, precisavam que a verdade ficasse escrita.
«Agora sinto-me partida, esmagada. O que aprendi cá?
Será que cá se pode aprender a bondade ou a compaixão? Ou a alegria?»
É impressionante a lucidez destes retratos, que nos desarmam, que nos demonstram a violência, o sofrimento, a destruição (interior e exterior), o medo, a espera e todos os traumas que se multiplicam com o tempo - ou com as recordações. Ninguém fica indiferente ao avançar nestas páginas, que contestam a mentira e evidenciam a brutalidade da guerra, a sua inutilidade e a vergonha camuflada na culpa de quem regressa.
«A quem grito? Quem me ouvirá?»
O próprio significado do título é prova da desumanidade e do quanto há valores trocados no mundo. Há muita dor nestas palavras, sonhos desfeitos e narrativas que chocam, mas nunca ao ponto de o sentirmos na pele, porque estamos longe de imaginar a angústia de ver os nossos a voltar a casa, mas sem sabermos como é que regressam, porque as pessoas que partiram - e quem ficou a vela-las - nunca mais serão as mesmas.
«Em casa, guardávamos silêncio»
Rapazes de Zinco é o espelho de mais um período histórico devastador. Por isso, é uma leitura que nos pesa, ao mesmo tempo que também nos mostra a coragem que é necessária e a empatia que nos deveria mover.
🎧 Música para acompanhar: Relva Junto a Casa (título traduzido), Zemlyane
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